Saltar para o conteúdo

André Villas-Boas comenta ligação de Francesco Farioli ao F. C. Porto e o mercado de treinadores

Dois treinadores de futebol em campo discutem estratégias junto a um quadro tático, com jogadores a treinar ao fundo.

André Villas-Boas, presidente do F. C. Porto, falou esta terça-feira sobre Francesco Farioli: desde o primeiro contacto, passando pelos mercados, pela ligação do técnico italiano aos azuis e brancos, e ainda pelo "assédio" de alguns dos maiores clubes.

Numa entrevista ao podcast "Código Farioli", da "Renascença", André Villas-Boas recuou ao início da relação com o treinador italiano, uma das figuras centrais na conquista do mais recente campeonato nacional do F. C. Porto.

Primeiros contactos entre André Villas-Boas e Francesco Farioli

"A primeira vez que me cruzo com ele será no Catar, que ele só me alertou para esse facto agora. O Francesco, quando estava na Aspire, acabou por me seguir no Zenit e no Shanghai SIPG, por conta dos estágios que eu fazia na Aspire [Catar], no meio das temporadas ou nas pré-épocas, no caso do Shanghai. Portanto, essa é a primeira vez que ele se cruzará comigo enquanto treinador. Eu ganho consciência do treinador Francesco Farioli mais pelo seu trabalho em França, quando se afirma finalmente como treinador, como alguém revolucionário. Nas ideias, no método e na afirmação das suas lideranças. Pré-Nice há, evidentemente, o período na Turquia, no qual há o seu nome associado mais ao Braga, como potencial treinador do Braga, e uma pessoa que estava a despontar para o início da sua carreira", explicou o presidente do F. C. Porto.

Sobre o impacto inicial, Villas-Boas considerou que é um processo fácil de descrever, embora exigente de concretizar na prática, sublinhando o peso do primeiro contacto ao nível humano.

"É algo construtivo. No campo das relações, o primeiro impacto é muito importante e há muitas vezes pessoas que falam que em 20 segundos se consegue obter o ponto de vista comunicacional, personalidade, como é o caráter de uma pessoa. Portanto, o subconsciente do ser humano rapidamente absorve quais são as principais e as primordiais características de um líder", refere, antes de passar para a rotina de trabalho no campo.

Com o passar do tempo, disse, o que se intui à primeira vista confirma-se - ou não - com treino, rendimento e com a forma como o treinador gere o grupo.

"Depois, há toda a confirmação do que é esse método que vem depois com o treino, com os resultados, com o jogo, com a empatia, com a capacidade de reconhecer as características de cada um, e isso foi-se levando com o tempo. Foi feito um convencimento de ambas as partes, entre os jogadores e o treinador, as diferentes sinergias que acontecem à medida que se vai desenrolando o tempo e que o treinador vai afirmando o seu trabalho", completou.

Conversas de jogo, tática e o caso Samu nas bolas paradas

O presidente portista abordou ainda as conversas de tática e, em particular, o tema das bolas paradas e o caso de Samu, mencionado anteriormente por Farioli, enquadrando essas trocas como normais e informais.

"São conversas normais, há um entendimento do jogo que eu tenho naturalmente, pela forma como me fui formando enquanto treinador. Os princípios que eu levei para as minhas equipas, a forma como as orientei, o meu próprio método. Nesse aspeto, cada treinador tem o seu método. Isto é uma ferramenta e uma arma que nós temos para o reconhecimento das qualidades do treinador e da sua capacidade de intervenção. Partilhamos ideias. Farioli revelou que eu sugeri colocar o Samu a defender os cantos ao primeiro poste? Isso acabam por ser brincadeiras que o Farioli traz à mesa, mas são conversas que nós temos de uma forma muito informal e nunca autoritária de presidente que quer colocar o treinador a fazer alguma coisa", declarou o dirigente portista.

Farioli é "um treinador à Porto"

Após um início de época muito forte, a fase de transição para o novo ano e o trabalho feito no mercado de janeiro acabaram por ter um peso determinante para que a temporada terminasse da melhor forma.

Mercado de janeiro e decisões na estrutura do F. C. Porto

"Janeiro acaba por ser um momento importante, não só o que está relacionado com a renovação do treinador, no que é o acreditar no projeto, no método e na liderança para o futuro. Acho que esse é um passo também que o treinador e o clube queriam dar em conjunto, na antecipação do reconhecimento de um bom trabalho. Depois, há tudo o que é trabalhar em estrutura. (...) Foi isso que aconteceu também em janeiro: um corpo comum de ideias relativamente ao mercado de janeiro, entre jogadores que o treinador conhece, com os quais já trabalhou; outros não, mas que sabe do potencial que podem ter dentro do seu sistema. E depois, também, todo o trabalho de equipa de scouting relativamente a jogadores tão jovens como o caso do Oskar [Pietuszewski] e a forma como ele rapidamente se adaptou à equipa e o rendimento que deu, com golos e assistências de forma imediata", salientou André Villas-Boas.

Na mesma linha, Villas-Boas explicou a contratação de Thiago Silva como uma oportunidade rara, num contexto em que a equipa tinha limitações no eixo defensivo devido a lesões.

"Relativamente à chegada do Thiago, é uma oportunidade de mercado que nós queríamos abraçar. Estávamos muito inquietos com o facto de termos apenas três centrais disponíveis, fruto da lesão do Nehuén e da rotura do tendão de Aquiles. Sabendo também que o Pablo nos ofereceu condições e fez muitos jogos a central, e que nos deu máximas garantias, mas a oportunidade de mercado que se deu com o Thiago Silva foi única. E depois, tudo o que é o campo emocional relacionado com trazer o Thiago Silva de volta ao F. C. Porto, após a sua passagem na equipa B (...) Todo este retorno do Thiago Silva é mágico e o facto de vermos um jogador com a sua experiência, com o seu palmarés, com todos os títulos que ganhou, capitão do Brasil, no F. C. Porto é para nós um motivo singular de orgulho e que muito nos dignifica enquanto clube. Isto foi uma possibilidade que nos foi trazida pelo agente, que nós não queríamos acreditar que fosse possível. No seguimento dessa chamada do agente comigo, eu liguei ao treinador e o treinador ficou encantado e, se calhar, foi das contratações que mais rapidamente fechamos", acrescentou.

Sobre a forma como Farioli encaixa no clube, André Villas-Boas disse que essa identificação é visível dentro de portas e também para quem está fora.

A identificação de Farioli com o F. C. Porto é reconhecida "internamente, mas exteriormente também". "Vemos um treinador à Porto, que sabe reconhecer a exigência dos adeptos, a pressão que existe neste clube, a forma como se tem de lidar com a pressão e o facto de este clube ter sempre um posicionamento muito específico relativamente ao seu entorno e a forma como os nossos princípios devem ser defendidos", afirmou André Villas Boas.

"Mercado de treinadores está muito volátil"

Já na reta final, o presidente do F. C. Porto falou do interesse de clubes de topo e do facto de Farioli ter recusado sair, contextualizando esse tema num cenário de grande instabilidade no futebol.

"Respeitando todos os posicionamentos, acho que os treinadores, evidentemente, são assediados por outros clubes. Constatamos cada vez mais, nos grandes mercados, a imprevisibilidade que está associada à carreira de treinador. Nós vimos fenómenos muito específicos acontecer este ano, principalmente naquela que é reconhecida como a maior liga do mundo, relativamente a treinadores e a esse fenómeno de sucesso e queda. Isto significa que o mercado de treinadores está muito volátil e que rapidamente os sucessos se tornam em insucessos e é a partir desses momentos", observou, considerando que os azuis e brancos dão estabilidade.

Nessa perspetiva, Villas-Boas defendeu que, perante a volatilidade, os treinadores passam a valorizar contextos que ofereçam estrutura e continuidade, e deixou ainda aberta a porta a que Farioli, no futuro, alcance os maiores palcos.

"Os treinadores começam a valorizar mais onde é que estão, o que é que os clubes oferecem, que clubes garantem estabilidade e, no fundo, que clubes garantem uma simbiose perfeita e uma troca perfeita de sinergias, de corpo comum de ideias, de estrutura, de funcionamento e da dificuldade que é encontrar clubes como este F. C. Porto no panorama atual. (...) Ele seguramente assegurará que aqui encontrou estabilidade, que aqui encontrou estrutura, que aqui encontrou ideias e que aqui encontrou uma estrutura que funciona para fortalecer o treinador e o seu método. Chegar aos maiores colossos europeus? Com a idade que tem e com o sucesso que esperamos que ele obtenha no F. C. Porto nos próximos largos anos, acho que sim", finalizou.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário