A modernidade liberal e o instinto comunitário
Contra a viragem liberal dos contratos em vez do aperto de mão, da propriedade privada em vez dos maninhos colectivos, das florestas de pinheiros em vez dos baldios pastorícios, das cercas em vez da transumância, do imposto único em vez dos impostos locais, do comboio, do comércio, do lucro, da utilidade e da eficácia - em suma, contra aquilo a que, por facilidade, chamamos modernidade - tornou-se cedo evidente, no século XIX, uma aliança improvável: de um lado, o comunitarista miguelista; do outro, o sindicalista anarquista.
Eram, por assim dizer, irmãos unidos por um ressentimento comum: detestavam a “mãe”, isto é, a modernidade do Estado centralizador e da economia capitalista, que pensa à escala global e não à medida do lugar.
Pense-se numa cena típica da revolução liberal da primeira metade do século XIX: com a complacência do Estado lisboeta, um proprietário liberal expropria um convento que, há séculos, produz hortaliças para a população local numa lógica de economia circular, e converte o terreno numa herdade orientada para exportar laranjas para Inglaterra. Para o miguelista - e depois para o anarquista - isto é uma monstruosidade: a natureza não existe para ser tratada desta forma industrial; a terra não é um objecto, nem uma mercadoria, à disposição do homem.
Visto deste ângulo, ambos eram, como hoje se diz, ambientalistas.
Campanalismo, miguelismo e a guerra aos “papéis”
Fala-se muito de miguelismo reduzido à caricatura do trono e do altar, mas o povo miguelista tinha outras prioridades. O poder da sua terra devia permanecer na sua terra, e não ser decidido em Lisboa. Por isso prefiro outro “ismo” para traduzir esta disposição: o “campanalismo”, termo que ainda se usa em Itália.
A ideia é simples: só quem ouvia o sino da Vila de Cima teria legitimidade para opinar sobre o destino da terra; os da Vila de Baixo já ficavam de fora - e os de Lisboa, mais ainda.
O povo miguelista defendia um quotidiano comunitário, com fornos, poços e terras de uso comum, e não a “propriedade privada” do devorista. Pretendia também um calendário ritmado pelos dias santos - dezenas, às vezes centenas - o que, como é óbvio, exasperava os liberais, obcecados com produção e com a regularidade semanal.
Daí que não seja acaso que, sempre que podiam, os miguelistas invadissem cartórios e edifícios públicos para queimar “papéis”. Esses “papéis” eram os contratos liberais que vieram cortar séculos de vida comunitária com a frieza da propriedade privada: apropriavam-se dos baldios e, como já se viu, de outro espaço comunitário decisivo - o convento, o mosteiro, as ordens religiosas - que sustentavam uma economia fora do Excel do lucro.
As freiras ainda perguntavam aos modernos liberais: “Mas quem é que agora vai cuidar dos lerdos e inválidos que dependem dos conventos?” Pois, irmã, percebe-se logo: o progresso não pode parar.
As “Vendeias” portuguesas e a herança comunitária das esquerdas
Os nossos miguelistas lembram os adversários da Revolução em França que, por exemplo, foram massacrados na Vendeia. Também tivemos as nossas Vendeias - muito pouco trabalhadas pela historiografia e pela literatura - com a excepção clássica de Camilo Castelo Branco, que, não por acaso, foi retirado dos currículos escolares há uns anos.
Uma geração depois, por volta de 1870, o mesmo espírito comunitário, anticapitalista e anti-individualista dos comunitaristas de direita já se via reflectido na Comuna e nas comunas que moldaram, durante mais de um século, a cabeça das esquerdas.
É, aliás, revelador notar como as experiências anarquistas a sul do Tejo, no século XIX e no início do século XX, tinham como utopia precisamente o modo de vida comunitário de uma aldeia miguelista, de um convento ou de uma missão jesuíta: não havia poder, nem propriedade, nem sequer família no sentido clássico.
Por isso, em “Nostalgia do Absoluto”, George Steiner via o comunismo como nostalgia da vida comunitária e aldeã destruída pela modernidade liberal.
Salazar e Cunhal, 1975 e o medo da cidade cosmopolita
No século XX, as semelhanças prolongaram-se. A visão de mundo de Salazar aproxima-se da de Cunhal: a mesma austeridade, o mesmo moralismo aldeão na sexualidade, o mesmo desprezo pelo capitalismo, pela empresa, pelo Estado de direito, pela Europa e, sobretudo, pelos EUA.
Dito de outro modo: o mesmo ódio profundo à grande cidade cosmopolita, onde a liberdade individual se impõe a qualquer código social e colectivo, onde as pessoas já não se orientam pelo sino da igreja nem pela sirene sindical da fábrica.
Quando os comunistas puderam explicitar o que pretendiam para o país, em 1975, estas convergências tornaram-se muito visíveis: o modo de vida comunista significava um regresso à austeridade salazarista, que os portugueses começaram a rejeitar a partir do momento em que provaram o crescimento económico trazido pela EFTA e, sobretudo, quando viram os tios a regressar de França.
Chega e extrema-esquerda: a ferradura e o sonho do éden comunitário
É por isso que, lamento, as semelhanças cada vez mais evidentes entre Chega e extrema-esquerda não deviam surpreender. O espectro político não funciona como um segmento de recta; parece antes uma ferradura, em que as duas pontas acabam perto uma da outra.
Comunismo e cheganismo são duas correntes que partilham a aversão à sociedade liberal. Ambas fantasiam com o retorno ao éden comunitário: a porta de casa pode ficar aberta, toda a gente tem laços de sangue ou de vizinhança, e, no fundo, não há estranhos.
A irresponsabilidade do Chega na Segurança Social (baixar a idade da reforma) é apenas o exemplo mais recente destas afinidades entre populistas de direita e populistas de esquerda. Vou mais longe: não basta dizer que Ventura não tem um pingo de Sá Carneiro; é preciso afirmar que nem o actual líder do PCP é tão cunhalista como Ventura.
Por exemplo, Paulo Raimundo nunca dirá em televisão o que Cunhal disse sobre a homossexualidade em 1991: “É muito triste.” Mas Ventura é perfeitamente capaz de proferir essa barbaridade.
Esta irresponsabilidade do Chega no campo da Segurança Social (baixar a idade da reforma) é só o mais recente exemplo destas semelhanças entre populistas de direita e populistas de esquerda
Homofobia e machismo no PCP: o fosso com os bloquistas
A homofobia integra o património do PCP. Esse foi, de resto, um abismo social e cultural persistente entre comunistas conservadores e bloquistas libertários. Ao longo da sua história, o PCP viveu vários episódios de expulsão de homens homossexuais - sendo Júlio Fogaça o caso mais conhecido.
Há poucos anos, camaradas responsáveis pela segurança da Festa do “Avante!” agrediram um casal homossexual no recinto, justificando-se com a frase “não há camaradas maricas”. O PCP continua a recusar votar contra terapias de reconversão ou contra a perseguição de homossexuais em países da sua memória comunista, como Cuba.
E, se se expuser a homofobia da revolução, romances cubanos como “A Transparência do Tempo”, de Leonardo Padura, deixam de receber prémios e prebendas nos círculos dominados por comunistas.
E quanto ao machismo comunista? Bem, basta voltar às memórias de Zita Seabra, “Foi Assim”. Aliás, não deixa de ser curioso observar que, em museus comunistas, a história das camaradas mulheres é apagada ou remetida para uma nota de rodapé.
UE, Mercosul, Índia e o soberanismo comum a Chega e PCP/BE
Mas deixemos, por agora, os temas fraturantes e regressemos aos estruturantes. Quem se opôs aos recentes acordos entre União Europeia (UE) e Mercosul e entre UE e Índia? O Chega e a extrema-esquerda.
Ventura é tão proteccionista como comunistas e bloquistas; partilha uma leitura antiglobalização. E sobre a UE, o que pensa André Ventura? No essencial, o mesmo que comunistas e bloquistas.
Chega e PCP/BE são soberanistas e, por isso, encaram a UE como uma profanação da soberania nacional; Bruxelas surge como um laço que limita a liberdade soberana. Hoje associamos esta atitude ao ‘Brexit’ e à direita radical, mas o brexitismo sempre foi parte da essência da esquerda.
Cunhal odiava mortalmente a CEE, tal como Jeremy Corbyn, ex-líder do Labour e brexiteer de armário. Até Mário Soares teve, nos anos 70 e 80, momentos que cheiram ao antieuropeísmo dos comunistas. Recorde-se, aliás, que as revisões constitucionais de 82 e 89, destinadas a aproximar Portugal da Europa, foram conduzidas pela AD/PSD e não pelo PS.
Sim: Chega e PCP são irmãos a puxar duas cordas presas ao mesmo sino.
Sim: comunistas e nacionalistas integram a mesma irmandade que combina duas pulsões - a irracionalidade do povo que vive na sobrevivência e a irracionalidade das elites que sonham com utopias. Junta-se a fome com a vontade de comer o tempo: a ambição de fixar o tempo naquele éden comunitário perdido algures no passado. Toda a revolução é reacionária.
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