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Nuno Gomes denuncia tortura após interceção do exército israelita na Flotilha Global Sumud para Gaza

Homem com atadura na mão segura foto de um navio e fala em público ao ar livre, junto a colete salva-vidas.

Um ativista português que participou na Flotilha Global Sumud para Gaza afirmou ter sido alvo de tortura física e psicológica durante dois dias por militares israelitas, depois de Israel ter intercetado a embarcação onde viajava.

Em declarações à Lusa, Nuno Gomes, 56 anos, antigo motorista de mercadorias internacionais, disse que o exército israelita “travou a campanha marítima” no dia 27 de abril. A iniciativa, referiu, juntava 58 embarcações e 181 ativistas, com o objetivo de furar o bloqueio naval israelita e estabelecer um corredor humanitário permanente na Faixa de Gaza para fazer chegar ajuda humanitária, tendo, segundo o próprio, sido então “sequestrou todos os envolvidos”.

Nuno Gomes na Flotilha Global Sumud para Gaza: interceção e ameaças

"A intercessão por parte do exército israelita foi feita em águas internacionais, 50 milhas a sul da costa da Grécia. Foi muito violenta, tanto do ponto de vista psicológico como do ponto de vista físico. [...] Apontaram-nos armas com lasers, armas carregadas com munições reais. Não pediram autorização para entrar dentro das embarcações. A partir daquele momento, ficamos com a certeza absoluta que estávamos a ser raptados", relatou.

Ainda segundo Nuno Gomes, os militares ficaram com os documentos de viagem e impuseram instruções rígidas, com ameaças de uso de força letal caso não fossem obedecidas.

"Apoderaram-se dos nossos passaportes e deram-nos ordens específicas para que, se não cumpríssemos as ordens, iam disparar e poderiam inclusivamente matar-nos", acrescentou, reconhecendo que se sentiu assustado e com receio, apesar de, como disse, “saber muito bem lidar com medo”, por ter tido treino militar no corpo de tropas paraquedistas de 1988 a 1990.

48 horas no navio: privação de sono e lesões

O ativista, que vive em Arganil, perto de Coimbra, contou que, ao longo das 48 horas em que entende que “esteve raptado” a bordo do navio, foi submetido a “uma tortura psicológica permanente”, já que, afirmou, não os deixavam dormir e foi “atacado fisicamente” em várias ocasiões.

"Intercedi em ajuda perante camaradas meus, não cumpri com algumas ordens que eles me deram e [...] fui penalizado severamente e fui torturado fisicamente, acabando por sofrer lesões graves no meu corpo, incluindo uma costela rachada em dois sítios diferentes, uma lesão também grave que me causa bastantes dores na coluna vertebral e tenho algumas nódoas negras e arranhões pelo meu corpo todo, incluindo esta, que espero que mostre nas câmaras, que está aqui na minha testa. E aqui ainda tenho a cara um pouco inchada", indicou à Lusa.

"Abordagem do Consulado absolutamente vergonhosa"

Já em Lisboa, depois de regressar a Portugal a 2 de maio, Nuno Gomes classificou como “vergonhosa” a atuação do cônsul de Portugal em Creta - local onde, segundo referiu, o exército israelita desembarcou 179 dos 181 ativistas - e criticou o facto de o Governo português, na sua perspetiva, continuar a pactuar com Israel.

O ativista, que em agosto do ano passado realizou uma greve de fome em frente ao parlamento português em protesto contra a intervenção militar na Faixa de Gaza, insistiu que a postura do Consulado de Portugal em Creta “foi vergonhosa”, por entender que não recebeu qualquer apoio.

"Tenho de apelidar esta abordagem do Consulado como absolutamente vergonhosa, mas, também tendo em conta a posição do nosso governo, que continua a negociar com um país [Israel] genocida, isso não me admira", referiu, embora tenha considerado positivo Portugal ter reconhecido o Estado da Palestina.

"O cônsul esperou por mim, abordou-me, cumprimentou-me, perguntou-me como é que eu estava e expliquei-lhe a situação, que tinha sido raptado e torturado. Disse-me que não podia fazer nada, que eu tinha o meu passaporte comigo, que eu era um cidadão livre, que eu podia fazer aquilo que eu quisesse, e que tinha que contactar os meus familiares em Portugal para me comprarem uma passagem para eu regressar ao país. Disse-lhe boa noite, obrigado pela sua presença e fui-me embora", contou.

"Voltaria a fazer tudo outra vez": a decisão de repetir a ação

Questionado pela Lusa sobre se repetiria a participação, mesmo nas mesmas condições, Nuno Gomes respondeu sem hesitar: "voltaria a fazer tudo outra vez e essa seria sempre a minha opção e a razão por que o faria é precisamente por isso".

"Fazendo ou não fazendo algo, tenho sempre uma opção. E o povo palestiniano não tem opções. É tratado como sendo um povo de segunda classe. Isto não é justo, é ilegal. Não lhes é dada qualquer oportunidade de se defenderem. Eu, como cidadão responsável, lá estaria novamente ao lado deles, porque eles são uma lufada de ar fresco para a humanidade", respondeu.

"É um povo que tem sido maltratado violentamente. Os familiares daquelas pessoas são assassinadas, barbaramente assassinadas, estão a sofrer um genocídio desde quase há 80 anos e, no entanto, continuam a ser amáveis, a ter empatia, a mostrar amor pelo próximo e isso é um exemplo para mim, para a minha família e acho que devia ser um exemplo para todos os portugueses e para a humanidade em geral", concluiu.

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