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Florent Montaclair e a falsa Medalha de Ouro de Filologia

Homem sentado a analisar medalha dourada junto a documentos numa mesa de madeira numa sala com estantes.

Em 2016, Florent Montaclair, um professor universitário francês então com 46 anos, surgiu publicamente como condecorado com a Medalha de Ouro de Filologia (a disciplina que estuda, de forma histórica e científica, línguas e literaturas). A entrega teria ocorrido numa cerimónia na Assembleia Nacional Francesa, descrita como frequentada por laureados com o Prémio Nobel, antigos ministros do Governo francês, deputados, cientistas e académicos.

De acordo com o jornal britânico “Guardian”, Montaclair seria o primeiro francês a receber essa distinção - uma medalha que, alegadamente, já teria sido atribuída, entre outros, ao italiano Umberto Eco. No entanto, uma investigação judicial aberta entretanto - e que ouviu o próprio Montaclair em fevereiro deste ano - sustenta que a distinção, afinal, nunca existiu.

Florent Montaclair e a alegada Medalha de Ouro de Filologia

As autoridades francesas suspeitam de que o professor tenha montado toda a estrutura associada ao prémio: desde a Sociedade Internacional de Filologia até a uma suposta universidade norte-americana à qual a sociedade estaria ligada, além de vários sítios web criados para conferir credibilidade ao esquema.

Segundo a mesma investigação, a medalha terá sido encomendada pelo próprio a um joalheiro parisiense por 250 euros. Já o endereço da instituição académica apontava para uma empresa de serviços comerciais localizada em Lewes, no estado de Delaware, nos Estados Unidos.

O procurador Paul-Édouard Lallois, que dirige a investigação em Montbéliard, no leste de França, disse ao jornal que os investigadores passaram meses a tentar desfazer “uma teia de mentiras”. “Foi tudo uma grande farsa. Daria um filme ou uma série de televisão”, declarou.

Montaclair é alvo de investigação por suspeitas de falsificação, uso de documentos falsos, usurpação de identidade e fraude, embora o professor rejeite ter cometido qualquer ilegalidade.

Uma promoção, apesar do prémio falso

Depois de receber o prémio, o professor deu uma palestra TedX intitulada “O desafio Galileu”, na qual afirmou ter participado na decisão sobre o próximo vencedor da Medalha de Ouro de Filologia: Noam Chomsky, intelectual americano então com 87 anos, que se deslocou a Paris para receber a distinção.

Em 2018, Montaclair indicou como vencedor o académico romeno Eugen Simion, então com 85 anos. Jornalistas da publicação em linha Scena9 foram investigar a origem do galardão e concluíram que tanto a universidade como a sociedade científica existiam apenas através de sítios web criados e alojados em França.

Ainda assim, nesse mesmo ano, pediu ao Ministério do Ensino Superior francês uma promoção na Universidade de Marie e Louis Pasteur, em Besançon. Ao processo anexou um comprovativo de doutoramento na Faculdade de Filologia e Educação, entidade à qual estaria associada a Sociedade Internacional de Filologia. Apesar de não existir equivalência académica entre os sistemas de ensino superior dos dois países, a promoção acabou por ser concedida.

O que a investigação tenta apurar

Segundo o procurador Paul-Édouard Lallois, o ponto central da investigação é apurar se Montaclair beneficiou profissional e financeiramente de títulos académicos e distinções alegadamente fabricados por si próprio.

De acordo com o magistrado, o professor defende que a medalha não pode ser considerada uma falsificação porque nunca existiu uma versão “oficial” do prémio. “Na opinião dele, a medalha não é falsa. Uma falsificação pressupõe a existência de um original autêntico. Como nunca existiu uma verdadeira Medalha de Filologia, então a dele não pode ser considerada uma falsificação”, explica Lallois.

O procurador admite que, num plano estritamente técnico, qualquer pessoa pode criar um prémio ou uma distinção honorífica. “Pode encomendar em linha uma medalha de ‘melhor jornalista de França’, em ouro, prata ou bronze, atribuí-la a si próprio e organizar uma pequena cerimónia em casa”, ironizou. Ainda assim, sublinha que a questão jurídica ganha outra dimensão quando essas distinções são usadas para obter reconhecimento institucional, promoções profissionais ou notoriedade pública.

Montaclair está atualmente suspenso da universidade, segundo o seu advogado, Jean-Baptiste Euvrard, em declarações ao “Le Monde”. “Acreditou na sua própria mentira”, disse, acrescentando que o professor vai recorrer da suspensão e pretende continuar a sua carreira académica.

Texto de Jéssica Cristóvão, editado por João Pedro Barros.

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