“Houve erros desnecessários”, admitiu Keir Starmer. Eram 8h da manhã de sexta-feira e os resultados das eleições locais continuavam a chegar a conta-gotas. Ainda assim, o primeiro-ministro do Reino Unido deixou uma garantia: “Não vou virar as costas”. Com muitos votos por apurar, o líder trabalhista procurava travar, perante os jornalistas, a especulação de que um mau desempenho nas autárquicas e nas regionais da Escócia e do País de Gales pudesse levá-lo a abandonar a liderança do partido e do Governo.
Tal como as sondagens vinham a sugerir, a votação de quinta-feira confirmou um recuo simultâneo dos dois partidos tradicionais britânicos - trabalhistas e conservadores - e acentuou a fragmentação do voto. O eleitorado está hoje distribuído por cinco forças com implantação nacional: aos dois “grandes” juntam-se os Liberais Democratas, os Verdes e o Reform UK, da direita radical. A este quadro somam-se ainda os partidos nacionalistas com peso na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte (onde, contudo, só haverá eleições no próximo ano).
No caso do Partido Trabalhista, e com menos de dois anos decorridos desde a esmagadora maioria conquistada para a Câmara dos Comuns, o desaire revelou-se particularmente duro. Ao final da tarde de sexta-feira, quando algumas circunscrições ainda apuravam resultados, o partido no Governo já tinha perdido mais de mil representantes locais, num universo de cinco mil lugares em disputa (as autárquicas britânicas não decorrem em simultâneo em todo o Reino).
A “onda turquesa” inunda o país
O vencedor inequívoco desta ida às urnas foi o Reform UK. A força populista e anti-imigração partia de apenas três representantes locais e terminou com 1358. Trata-se de uma subida fulgurante, anunciada há meses pelas sondagens e agora confirmada de forma clara nas urnas. Em Westminster, o partido tem oito dos 650 assentos na Câmara dos Comuns.
Nigel Farage, líder do Reform UK, classificou os resultados como “mudança verdadeiramente histórica na política britânica”, sustentando que o partido conseguiu captar eleitores tanto aos conservadores como aos trabalhistas. “O melhor ainda está para vir”, disse perante apoiantes em Havering, no leste de Londres.
Os Verdes reforçaram a sua presença em várias autarquias urbanas, com destaque para Londres, onde alcançaram pela primeira vez uma maioria e um presidente da Câmara diretamente eleito em Hackney, no nordeste da capital. Os ecologistas conquistaram ainda os primeiros assentos da sua história no parlamento autónomo do País de Gales.
O partido tem beneficiado do descontentamento, à esquerda, com os trabalhistas de Starmer, e centrou a campanha no agravamento do custo de vida. A implantação dos Verdes também cresceu em áreas com maior população muçulmana, num momento em que a crise humanitária em Gaza e o contexto no Médio Oriente continuam a mobilizar a atenção dos britânicos e a ser intensamente abordados pelos Verdes, que criticam o que consideram ser uma postura demasiado moderada de Starmer face a Israel.
Zach Polanski, recém-eleito líder dos Verdes, apresentou estes resultados como mais uma demonstração da nova dispersão partidária no Reino Unido. “O bipartidarismo não está a morrer, está morto e enterrado”, afirmou esta sexta-feira, em Londres. Ao celebrar a subida de pouco mais de 100 para quase 500 vereadores, acrescentou que, a partir de agora, a disputa política se faria entre o seu partido e o de Farage.
Os Liberais Democratas não registaram um salto expressivo no número de eleitos locais, mas consolidaram ganhos em várias circunscrições, sobretudo no sul de Inglaterra, reforçando a estratégia de ocupação do espaço centrista e pró-europeu. Ed Davey, o líder, festejou “resultados fantásticos” e o fortalecimento da implantação nacional, sublinhando que o partido obteve o terceiro maior número de representantes locais, bastante próximo dos trabalhistas.
Do lado conservador, a líder do Partido Conservador tentou enquadrar o desfecho como “sinal de renovação”, apesar de os tories terem perdido mais de 400 assentos locais e de, desta vez, terem eleito menos autarcas do que os trabalhistas. As expectativas eram já muito baixas após a derrota pesada nas legislativas de 2024, ainda sob a liderança de Rishi Sunak. Kemi Badenoch apontou vitórias pontuais - incluindo o concelho municipal de Westminster, sede do poder britânico - como evidência de que o partido mantém capacidade de resistência num sistema em que, historicamente, alterna com o Labour na governação nacional.
Vêm aí parlamentos sem maiorias
“\“A principal lição para trabalhistas e conservadores é que a era do tradicional bipartidarismo provavelmente terminou\””, afirma ao Expresso o analista político Andrew Westwood. O académico de Manchester considera que o Reino Unido está cada vez mais próximo de um sistema com “cinco ou mais partidos relevantes”.
“\“Aumenta também a probabilidade de parlamentos sem maiorias claras\””, antecipa. “\“O Reino Unido poderá entrar num período em que coligações e acordos parlamentares se tornem mais frequentes, trazendo maior instabilidade política e negociações mais complexas de governação.\””
Westwood entende que Starmer ainda dispõe de tempo para recuperar parte do desgaste acumulado. “\“Ainda faltam mais de três anos para as próximas eleições legislativas, caso o governo cumpra a legislatura até ao fim,\”” recorda o antigo assessor de vários executivos. “\“Esta pressão poderá levá-lo a apostar em políticas mais ambiciosas - sobretudo na saúde, no custo de vida e no investimento público -, numa tentativa de apresentar mudanças tangíveis\””.
Desaire inédito para os trabalhistas no País de Gales
No País de Gales, o partido de Starmer sofreu uma derrota sem precedentes: no Senedd (parlamento regional), caiu de 44 para apenas nove deputados. A chefe do Governo galês, Eluned Morgan, nem sequer conseguiu eleger-se deputada regional e anunciou a demissão pouco depois de serem conhecidos os resultados. É o pior desempenho eleitoral dos trabalhistas desde a criação das instituições autónomas galesas, em 1999 - e acontece numa região que sempre foi governada por eles.
O grande vencedor foi o Plaid Cymru (Partido de Gales), que passa, pela primeira vez, a ser a maior força no parlamento regional, com 43 deputados em 96. Fica aquém da maioria absoluta, mas Rhun ap Iorweth deverá tornar-se o novo chefe do executivo autónomo, após anos em que o seu partido chegou a integrar coligações com os trabalhistas.
Logo a seguir surge o Reform UK, com 34 deputados, consolidando-se como segunda força política galesa. Só depois aparecem os trabalhistas, que descem de 29 para nove. Os conservadores recuam de 29 para sete deputados, enquanto os Verdes obtêm os dois primeiros assentos da sua história no Senedd. Os Liberais Democratas garantem também um representante.
Na Escócia, o Partido Nacional (SNP) volta a ser a principal força política, mas sem atingir a maioria de 64 lugares: fica-se pelos 58. O resultado falha por pouco a meta definida pelo líder e chefe do Governo escocês, John Swinney. Cumprir esse objetivo permitiria ao partido avançar com um novo referendo à independência em 2028 (no de 2014, a secessão foi rejeitada por 55% dos votantes).
Em segundo lugar, trabalhistas e Reform - que se estreia a eleger deputados regionais - empatam, ambos com 17 deputados regionais. No parlamento escocês estarão ainda os Verdes (15, o que abre a porta a uma aliança governativa com o SNP, possibilidade que não seria inédita; a estrutura escocesa do partido é independentista), os conservadores (12) e os liberais (10).
Um dado relevante nas eleições de 7 de maio é que deixam à frente de três dos países que compõem o Reino Unido políticos favoráveis à saída. Iorweth e Swinney defendem soberania para os seus territórios, enquanto na Irlanda do Norte a chefe do Governo é a republicana Michelle O’Neill, que apoia a reunificação da Irlanda.
Keir Starmer numa encruzilhada
Apesar de as eleições de quinta-feira serem, na forma, locais, a leitura política está a ser feita como um teste direto à autoridade de Starmer - até pela dimensão nacional do ato eleitoral, que incluiu em simultâneo eleições regionais. Mesmo com uma maioria confortável em Westminster, o primeiro-ministro dá sinais evidentes de erosão de popularidade.
Parte da pressão decorre da perceção crescente de que o Executivo central está a ter dificuldade em apresentar melhorias rápidas em áreas-chave, como o custo de vida, o Serviço Nacional de Saúde e o crescimento económico - precisamente os temas que dominaram a campanha trabalhista nas legislativas de 2024.
Ainda assim, aliados do primeiro-ministro tentaram desvalorizar a magnitude do revés, recorrendo a paralelos no interior do próprio partido. Têm lembrado que Tony Blair (primeiro-ministro entre 1997 e 2007) também sofreu perdas relevantes nas eleições locais de 1999, apenas dois anos após a vitória esmagadora de 1997, e que isso não impediu a recondução confortável do New Labour em 2001 e 2005.
Os nomes da sucessão
Embora Starmer insista que pretende manter-se no cargo, nos bastidores intensificaram-se as conversas sobre uma eventual sucessão. O nome mais repetido continua a ser o de Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester e antigo ministro trabalhista em várias pastas. Com forte popularidade no norte de Inglaterra e associado a uma agenda mais regionalista e social-democrata, é há anos visto como um potencial futuro líder do Labour.
O entrave principal é que Burnham não é deputado em Westminster, uma condição essencial para que qualquer desafio à liderança nacional seja credível. Alguns parlamentares trabalhistas chegaram a admitir, em privado, a hipótese de se demitirem para forçar uma eleição intercalar que permitisse o regresso do autarca ao Parlamento.
Em fevereiro, Burnham mostrou-se disponível para concorrer numa intercalar no círculo nortenho de Gorton e Denton, depois de o deputado se ter demitido por doença. A direção do partido recusou - decisão interpretada como reflexo do receio que o putativo rival desperta em Starmer. Em qualquer caso, num contexto de desgaste do Labour, uma manobra desse tipo implicaria sempre o risco de Burnham abandonar o cargo em Manchester e acabar por não vencer no círculo a que se candidatasse. O político não comentou as eleições do dia 7.
Entre os nomes mais debatidos internamente permanece o de Angela Rayner, muito por causa da ligação forte que mantém à base sindical do Partido Trabalhista. Vice-primeira-ministra durante apenas um ano, demitiu-se em setembro de 2025, após uma investigação independente concluir que violara o código ministerial por não ter pago imposto de selo relativo a uma propriedade. A controvérsia não parece ter travado as suas ambições nem afastado a hipótese de vir a liderar um partido que nunca teve uma mulher no comando.
O ministro da Saúde, Wes Streeting, é outro dos nomes frequentemente apontados. Ligado à ala mais centrista e modernizadora, é descrito muitas vezes como uma das figuras politicamente mais eficazes da nova geração trabalhista. Tem, contudo, a desvantagem de ter sido amigo de Peter Mandelson, o histórico do período de Blair que Starmer reabilitou como embaixador em Washington no ano passado, e que acabou por afastar ao fim de sete meses devido às suas ligações ao pedófilo americano Jeffrey Epstein.
Mais recentemente, ganhou tração o nome de Ed Miliband, depois de o jornal “The Times” ter avançado que o antigo líder do partido (2010-15) teria sugerido a Starmer, numa conversa privada, que começasse a preparar um calendário para a saída, numa tentativa de evitar uma disputa interna descontrolada. O gabinete de Miliband, atual ministro do Ambiente, recusou comentar a informação.
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