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Patrícia de Carvalho, do Chega, candidata ao Conselho de Opinião da RTP sob críticas ao jornalismo

Mulher em fato a falar em conferência de imprensa ao ar livre, rodeada por jornalistas com microfones.

Votação para o Conselho de Opinião da RTP

Esta sexta-feira, Patrícia de Carvalho deverá ser votada para integrar o Conselho de Opinião da RTP em representação do Chega, a par de outros dois deputados do partido, Bernardo Pessanha e Jorge Galveias. Leva consigo um percurso pouco habitual para quem vai escrutinar o serviço público, assinalado por críticas duras ao jornalismo, a jornalistas que acompanham o seu partido e também à própria RTP.

Campanha europeia e ataque aos jornalistas

Durante a campanha das eleições europeias, um episódio em que um imigrante confrontou Ventura - e que rapidamente se tornou viral nas redes sociais - levou o Chega a divulgar vários vídeos com informação falsa sobre esse cidadão. Nesse contexto, Patrícia de Carvalho, hoje deputada e candidata ao Conselho de Opinião da RTP, juntou-se às investidas, ao publicar um vídeo em que deixou um aviso à imprensa e afirmou que “o objetivo final destas pessoas [os comentadores] ou(...) de muitos jornalistas é acabarem com a imagem do Chega, denegrir a imagem do nosso presidente e do partido, porque sabem que somos uma ameaça para este sistema instalado, e é este sistema que queremos modificar e alterar, e eles não podem concordar com isso porque sabem que são os tachos deles que vão acabar”.

A deputada nunca explicou ao Expresso o que queria dizer com “tachos” quando se referia a jornalistas. Ainda assim, num texto que assinou no jornal partidário "Folha Nacional", divulgado na mesma altura, insistiu nos ataques à comunicação social por ter entrevistado o imigrante e acusou uma estação de televisão de ter “instigado” o homem a criticar Ventura. “Meus senhores, isto não é jornalismo; isto é ativismo político; é uma falta de respeito pelo código de ética e de deontologia do jornalismo. Isto“Isto é uma vergonha e estes jornalistas não deviam poder exercer a profissão”, atirou.

Patrícia de Carvalho e as posições sobre a RTP

Na audição dos candidatos ao Conselho de Opinião da RTP, realizada em abril, Patrícia de Carvalho apresentou-se como independente do ponto de vista partidário e defendeu que o órgão “tem papel importante nesta questão de evitar que haja tentativa de controlo político do serviço público”. Noutros momentos, valorizou a ligação à diáspora e a programação cultural dirigida ao interior e, quando o Governo propôs o fim da publicidade na RTP, avisou que “eliminar a publicidade da RTP é retirar-lhe uma importante fonte de financiamento”, sustentando que o plano do Governo “coloca em causa a prestação do serviço público em Portugal”.

Fora do plenário, porém, as apreciações têm sido menos elogiosas e, em diferentes ocasiões, questionou abertamente conteúdos da RTP - precisamente a entidade que, se entrar no Conselho de Opinião, terá de escrutinar. Em julho de 2025, depois de Rita Matias citar nomes de crianças, a televisão exibiu um desenho animado em que crianças com nomes tipicamente asiáticos e africanos eram substituídas por imagens de Adolf Hitler; permaneceram na sala nomes como “André” e “Rita”. A deputada, e potencial conselheira, reagiu no Facebook desta forma: “Talvez se devesse fazer uma auditoria à RTP para se saber com quem e com o quê está a ser gasto o dinheiro dos contribuintes…”.

Já em maio de 2024, visou a jornalista da RTP Rita Marrafa de Carvalho por esta ter comparado, na sua página pessoal, a alegada existência de um “engenho explosivo” na sede do Chega à “facada de Bolsonaro”, apontando a um possível “discurso de vitimização”. Patrícia de Carvalho mostrou-se indignada com essa opinião e escreveu no Facebook que “o dinheiro dos impostos serve para pagar esta menina”. “Devia ter mais respeito, mas já sabemos como são os jornaleiros de esquerda!”, acusou.

O jornalista Miguel Carvalho, autor do livro “Por Dentro do Chega”, relata igualmente um momento em que Patrícia de Carvalho terá evidenciado hostilidade perante a presença do ex-repórter da “Visão”, que investigou o partido. Segundo Miguel Carvalho, num comício no Porto, a então assessora aproximou-se por ele estar sentado numa mesa de jornalistas e, quando questionada sobre se ele podia ali estar, respondeu: “Se eu mandasse, não estava.”

No mesmo livro, é ainda referido que a Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) chegou a intervir para garantir a presença do jornalista no congresso de Viana do Castelo, uma vez que “Patrícia Carvalho, diretora de comunicação, dirigente e deputada, fizera saber, dado o pedido de credenciação e a nova condição profissional, que não podia garantir-me entrada no congresso”.

Perante perguntas do Expresso, Patrícia de Carvalho afirmou que “enquanto assessora e atualmente como deputada sempre” teve “uma conduta respeitosa para com os jornalistas, nunca faltando ao respeito a ninguém”. Disse também: “Sempre respeitei o seu trabalho, o que não significa que não o possa criticar quando considero que não respeita o código deontológico dos jornalistas”, assegurando ainda que “nunca” ameaçou um jornalista.

Quanto à ameaça relativa aos “tachos”, tema sobre o qual recusou responder em 2024, limitou-se a comentar que “não é novidade absolutamente nenhuma que existe um conjunto de jornalistas que usa a profissão e a respetiva exposição pública para combater o Chega”.

Numa outra audição, em julho de 2024, na Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ), falou de situações em que jornalistas desempenhariam funções incompatíveis com o Código Deontológico e queixou-se de que “o que mais há para aí é jornalistas que emitem opi­niões”, exigindo uma “regulação mais apertada da ERC” - apesar de não existir impedimento a que jornalistas participem em espaços de opinião, desde que esses espaços sejam identificados como tal e não como informação, nomeadamente em editoriais.

Atualmente, para além de intervir com frequência como comentadora na RTP, o órgão de comunicação social onde Patrícia de Carvalho aparece mais é a “Folha Nacional”, jornal do Chega que já foi admoestado pela ERC por difundir notícias e sondagens falsas. Mantém-se como diretora-adjunta e essa participação não constava do currículo disponibilizado aos deputados da Comissão de Cultura, Juventude e Desporto, da qual a própria faz parte.

Sobre um eventual conflito entre posições públicas relativas à RTP e a possível entrada no Conselho de Opinião, considera que “não faz qualquer sentido” pôr em causa a sua isenção apenas por ser deputada do Chega. “Os membros do Conselho de Opinião ao longo dos anos não tinham opinião e posições políticas públicas? A verdade é que a questão só se coloca agora porque o Chega tem oportunidade - na sequência das eleições legislativas que lhe deram a liderança da oposição - de indicar nomes para o Conselho de Opinião da RTP”, respondeu.

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