Acreditamos que sim, percebemos perfeitamente. Se for como nós, é natural sentir-se atraído por carros mais potentes e divertidos do que aquilo que faz sentido para um primeiro carro. Mas pare um instante… acabou de tirar a carta e, na prática, a experiência ao volante é quase zero.
Será aconselhável dar logo o salto para uma máquina «séria»?
Em muitos casos, não. O primeiro carro funciona quase como um prolongamento do carro da escola de condução: é nele que vai aprender a conduzir a sério e, muito provavelmente, será também o carro que mais vai “pagar” a sua inexperiência. É a cobaia que o vai ensinar, com o tempo, às rotinas e às dores de cabeça (e às alegrias) de ser dono de um automóvel.
Por isso, faz sentido começar por algo mais discreto… um carro simples, económico, resistente e com manutenção ao alcance da carteira. A seguir, reunimos algumas dicas para ajudar a escolher o primeiro carro.
1. Compre um carro barato
A menos que “herde” um carro de um familiar, é bastante provável que tenha de comprar o seu. Mesmo que até tenha margem financeira - ao ponto de conseguir comprar um carro novo -, o mais sensato, nesta fase, costuma ser virar-se diretamente para o mercado de usados.
Ainda assim, não se prenda apenas ao preço de compra, mesmo quando parece uma pechincha. Um automóvel absorve dinheiro em várias frentes: combustível, IUC, seguro, manutenção, portagens, estacionamento… Faça as contas com rigor para garantir que o carro não passa a ocupar uma fatia demasiado grande do orçamento mensal.
2. Escolha um carro simples, robusto e fiável
Aqui, manda o bom senso. Pode estar a namorar aquele motor ou aquela característica XPTO, mas nos primeiros anos como condutor convém seguir o princípio da simplicidade (o famoso “manter as coisas simples”). A ideia é evitar complicações desnecessárias.
Sendo o primeiro carro - e estando ainda a ganhar calo - é normal cometer erros, e o risco de a conta disparar é real. O objetivo é reduzir ao mínimo os custos inesperados.
Do ponto de vista mecânico, sempre que possível, prefira a receita mais básica: motores atmosféricos e de baixa cilindrada. Idealmente, é melhor ter corrente de distribuição em vez de correia, mas isso pode ser mais difícil de encontrar.
A lógica deve aplicar-se ao resto do carro: faz sentido escolher um descapotável com uma capota metálica complexa e cara de reparar? Se o objetivo é simplicidade, provavelmente é mais prudente optar por um modelo de tejadilho fixo.
Quanto à fiabilidade, como perceber se é um carro “à prova de bala”? Hoje vive-se na era da informação: com poucos cliques consegue ter uma noção clara da robustez e dos problemas típicos de praticamente qualquer modelo. Carros sem falhas não existem, mas há, sem dúvida, uns mais fiáveis do que outros.
Se encontrar um carro simples e suficientemente fiável, grande parte das despesas pode resumir-se à manutenção básica: troca de óleo e filtros.
3. Compre um carro em bom estado
Este é o ponto crítico na compra de qualquer usado, seja ou não o seu primeiro carro. É essencial fazer tudo o que estiver ao seu alcance para avaliar o estado do carro.
Ninguém quer surpresas desagradáveis. Se tiver um mecânico conhecido, leve-o consigo; em alternativa, se der para isso, o ideal é mesmo passar numa oficina e pedir uma inspeção ao estado geral antes de fechar negócio.
Se não conseguir, pelo menos faça uma avaliação inicial com atenção aos sinais óbvios: há pontos de ferrugem? Nota diferenças de tonalidade na carroçaria de painel para painel (um possível indício de acidente e repintura)? E por dentro: como estão bancos, estofos e cintos? E os botões e manípulos? As portas e o capô abrem e fecham bem?
Também é crucial verificar pneus e travões - são a única ligação ao asfalto, por isso o estado de ambos é determinante. Confirme se os pneus têm a medida correta, se o piso está em boas condições e se não estão ressequidos (o que pode indicar demasiados anos). Nos travões, os discos não devem ter sulcos na superfície e as pastilhas devem ainda permitir alguns milhares de quilómetros de utilização.
4. Conduza o carro antes de o comprar
Fazer um teste de condução é, de facto, uma das formas mais eficazes de perceber se o carro está em condições. Evite comprar sem experimentar.
É verdade que, por ser recém-encartado, pode ter pouca (ou nenhuma) experiência ao volante, mas isso não deve ser motivo para abdicar do teste. Ao conduzir, dá sempre para detetar sinais importantes sobre o estado geral.
Repare se trava bem, se surgem ruídos estranhos durante o funcionamento - pancadas na suspensão ou estalidos na direção -, se o motor não “engasga” quando acelera, se as mudanças entram sem esforço, e por aí fora.
Teste também o ar condicionado, as luzes e até o sistema de som: tudo deve trabalhar como esperado. Se algo falhar, pode servir como argumento para negociar o preço - mas tenha atenção ao custo de reparar ou substituir o componente com defeito.
5. Carros automáticos? Não
A lógica é direta: sendo o primeiro carro, vai servir para aprender a conduzir a sério, e nada substitui a prática de dominar o terceiro pedal e de engrenar as relações. Saber quando passar à mudança seguinte, quando reduzir, usar a caixa para ajudar a travar e lidar com o famoso ponto de embraiagem são aprendizagens valiosas que ajudam a formar um condutor melhor.
Sim, as caixas manuais parecem caminhar para a extinção, mas no tipo de carros simples e modestos que aqui recomendamos como primeiro carro, continuam a ser as mais frequentes. Além disso, por serem mais simples do que as automáticas, se algo correr verdadeiramente mal, a fatura tende a ser mais baixa.
6. Quantos menos cavalos, melhor
Há quem discorde, mas começar com menos potência pode ser uma escolha inteligente. Isto não significa que 50 cavalos impeçam problemas - não impedem. Como alguém disse, “o carro só anda aquilo que tu quiseres”, que é como quem diz, o controlo do pedal da direita somos nós que o temos, tenha 50 cv ou 500 cv.
Ainda assim, a tentação existe. Mal se tira a carta, só apetece conduzir - e ainda por cima no nosso primeiro automóvel. Mesmo com 50 cv, acabamos, muitas vezes, por nos meter em “aventuras”. Não é um carro de “10 segundos” à Velocidade Furiosa, mas a velha pergunta do “quanto é que dá” volta e meia aparece-nos na cabeça.
Um carro com poucos cavalos traz vantagens claras. Em regra, são mais económicos no dia a dia e tudo acontece de forma mais gradual. Para andar rápido, é preciso insistir mesmo no acelerador - algo que não acontece em carros mais potentes e modernos, onde por vezes nem se percebe a velocidade a que se vai.
Além disso, ajuda a treinar a paciência - e muita - sobretudo no momento de ultrapassar. Obriga a fazer contas com cuidado para garantir que a manobra é feita em segurança.
Os carros mais potentes podem esperar.
7. Gastar só o necessário em reparações e melhoramentos
Como carro de aprendizagem, é muito provável que não fique com ele para sempre. À medida que ganha experiência e conduz outros carros, cresce a vontade de passar para algo mais alinhado com o que realmente procura - seja em mecânica, desempenho ou equipamento.
Talvez por isso, faça sentido evitar gastar dinheiro em extras como um conjunto de jantes mais chamativas ou um sistema de som topo de gama. Quando chegar o momento de vender o primeiro carro, são itens que não vão acrescentar nenhum valor e, no fundo, esse dinheiro ficou pelo caminho.
Com reparações, a ideia é parecida: se tiver de investir, que seja no que é essencial para o funcionamento correto, sobretudo em segurança e mecânica - travões, amortecedores, entre outros. Melhoramentos podem fazer sentido, e isto não é uma referência a preparações ou personalizações.
Por exemplo, se os pneus que o carro traz agarram ao asfalto como uma casca de banana, não vale a pena poupar quando chegar a hora de trocar. O ideal é esquecer soluções de baixo custo, como pneus usados.
Por outro lado, se ao estacionar riscou uma jante ou ficou com danos superficiais no para-choques por não ter visto o pilar atrás, isso entra no campo do secundário. Pode esperar… nem que seja para o próximo carro.
8. Desfrute do seu primeiro carro
É o seu primeiro carro e, com ele, vêm experiências e também algumas aventuras. Ainda hoje o automóvel continua a ser um símbolo de independência e liberdade. Se perguntar a familiares ou conhecidos pelo primeiro carro deles, vai notar quase de certeza pontos em comum na forma como o recordam.
Pode não ter sido o melhor carro que tiveram, mas muitas vezes é aquele que guarda as memórias mais ricas - pelas viagens que fizeram, e também pelas imprudências e erros que aconteceram pelo caminho.
É o seu primeiro carro; por isso, aproveite-o a sério… há viagens que não vai esquecer.
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