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Rodrigo Guedes de Carvalho estreia O Princípio da Inquietação e alerta para a Inteligência Artificial

Homem com microfone grava podcast num escritório, com auscultadores e computador com gráficos de áudio na mesa.

Morte, maldade e o mundo “apipocado” com Rodrigo Guedes de Carvalho

No episódio de arranque, Rodrigo Guedes de Carvalho parte de duas inquietações que coloca no centro da conversa: o enigma da morte e a questão de onde nasce a maldade. O pivot da SIC sustenta que o mal não é uma anomalia nem um desvio raro - atravessa culturas, épocas e pessoas.

A ideia ganha ainda mais força, diz, num tempo cada vez mais “apipocado”: um mundo demasiado protegido da frustração e do embate com a realidade. O neologismo, que tanto serve para crianças como para adultos, descreve uma sociedade embalada pelo conforto e por uma vida saturada de informação.

“Estava aqui a pensar se são apenas as crianças que estão apipocadas ou se nós próprios estamos todos mais apipocados e até que ponto é que esse neologismo tem a ver com uma certa distância confortável face à verdade. Até que ponto é que vivemos na era da hiperinformação, mas temos medo das verdades”, afirma.

Com uma neta recém-nascida, o jornalista admite inquietação perante a forma como os mais novos têm sido pouco preparados para lidar com a frustração e com a deceção.

“As novas crianças crescem num mundo absolutamente idealizado por pais que julgam estar a fazer o melhor para eles e depois têm enormes desilusões assim que chegam a outros sítios”.

“Olhei para a minha neta recém‑nascida e pensei: isto é uma pessoa que terá a nossa educação, os nossos princípios, mas ali dentro já habita um ser humano que nós não sabemos quem é nem como vai ser”

Jornalismo, verdade e Inteligência Artificial

A conversa torna-se mais sombria quando entra o jornalismo e a Inteligência Artificial. Guedes de Carvalho chama a atenção para um perigo concreto: acontecimentos integralmente fabricados por IA poderem gerar consequências reais, normalizando a mentira e desgastando a esfera pública.

Num momento em que a verdade disputa espaço com o impacto e com a atenção, defende que informar continua a ser um exercício de responsabilidade.

Hoje, o risco já não se esgota no ato de mentir: passa também por omitir e por tornar o mal banal.

“O que vai poder acontecer muito rapidamente é termos acontecimentos totalmente gerados por Inteligência Artificial que terão uma resposta no mundo real. Por exemplo, alguém elaborar doze horas de um noticiário que não existe, com pivôs que não existem, com imagens que não existem, e dizer que um templo católico foi incendiado no Paquistão, fazendo duzentos mil mortos, e desencadear um conflito a partir daí. Não estamos perto, estamos sentados em cima desta frigideira. E eu não sei como é que ainda não aconteceu.”

Como ouvir O Princípio da Inquietação

No fecho, entre desejos filosóficos pouco prováveis, acaba por vencer a imagem de um esfregão da loiça: limpar, pôr em ordem e preparar o mundo para o que vem a seguir.

Oiça o novo podcast do Expresso aqui ou em qualquer aplicação de podcasts, onde pode subscrevê-lo, comentar e enviar sugestões.

O Princípio da Inquietação é um podcast onde pensar é um verbo praticado a sós e em diálogo. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para conversas sem rede. Aqui, as certezas são postas em causa e a dúvida passa a ter estatuto de virtude. O propósito é exercitar a nobre arte de pensar, mesmo que isso leve não a respostas, mas a novas perguntas.

Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma nova inquietação.

Ficha técnica e créditos

A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

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