“Pancadinhas de amor”: é assim que Donald Trump se refere ao que está a acontecer. As últimas horas voltaram a mostrar como tudo se acelera na guerra iniciada pelos Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irão. Durante a noite, Washington e Teerão reclamaram ter atacado no estreito de Ormuz e trocaram acusações sobre a responsabilidade dos incidentes.
Pouco antes do “arrufo” (para usar o registo quase ternurento do Presidente norte-americano), Trump exibia um otimismo crescente quanto à possibilidade de um acordo. Ainda assim, o inquilino da Casa Branca repete que as conversações continuam “no bom caminho”.
Nos últimos dias, a escalada no estreito de Ormuz parecia milimetricamente calibrada por ambas as partes. John Strawson, especialista em Estudos do Médio Oriente na Universidade de East London, dizia então que a zona vivia “num momento perigoso neste conflito”, com ambos os lados “presos a uma retórica crescente sobre o controlo do estreito, que tem sido reforçada pelos confrontos militares”. A hipótese de a situação fugir ao controlo deve ser sempre considerada, mas “seria trágico, dado que cada lado assinalou que deseja o fim da guerra”, afirmou Strawson ao Expresso.
Entretanto, Trump voltou a ameaçar uma resposta “mais dura” e bombardeamentos com “muito mais violência” caso Teerão não avance para um entendimento. Reiterou a ideia depois de sublinhar que “numerosas” embarcações iranianas estão agora “no fundo do mar”. Acrescentou ainda que três navios de guerra norte-americanos atravessaram o estreito “com sucesso” e sem danos.
Incerteza: passará o cessar-fogo de temporário a permanente?
Segundo as Forças Armadas norte-americanas, foram intercetados “ataques iranianos não provocados”, aos quais responderam com ações de autodefesa contra plataformas de lançamento em território iraniano. Já Teerão tinha afirmado anteriormente estar a atacar navios militares dos EUA, “causando-lhes danos significativos”, como resposta ao que classificou como uma violação do cessar-fogo por Washington. De acordo com o Exército iraniano, os EUA quebraram o cessar-fogo ao atingirem um petroleiro iraniano e um segundo navio quando entravam no estreito de Ormuz.
Um porta-voz militar do Irão acusou também as forças norte-americanas de terem violado o cessar-fogo ao atacarem “áreas civis”, ao longo das “costas de Bandar Khamir, Sirik e da ilha de Qeshm”. Em paralelo, os Emirados Árabes Unidos indicaram que os seus sistemas de defesa aérea estavam a intercetar “mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones” provenientes do Irão.
Enquanto o Paquistão - considerado um mediador crucial - dizia manter esperança num acordo para terminar a guerra “o mais rapidamente possível”, o Projeto Liberdade, anunciado pela administração norte-americana, pode afinal regressar (depois de ter sido suspenso apenas dois dias após entrar em vigor). Kuwait e Arábia Saudita terão autorizado os EUA a usar as suas bases para esta operação, que envolve um esforço norte-americano para fazer regressar a navegação ao estreito de Ormuz.
As limitações à narrativa trumpiana
Uma inquietação central de Trump poderá ser a dificuldade em proclamar uma vitória relevante sem avanços visíveis no estreito de Ormuz e sem um desfecho claro para o programa nuclear iraniano que seja superior ao acordo de 2015 obtido por Barack Obama. “Se for essencialmente o mesmo acordo, Trump será humilhado”, afirma ao Expresso o analista de defesa e estratégia Jamie Shea. Mas, acrescenta, “se não houver qualquer acordo com o Irão, os programas nucleares deste país ficarão completamente desimpedidos, e Trump sofrerá uma enorme pressão interna para explicar por que entrou em guerra e o que conquistou que justifique os imensos danos físicos e económicos”.
Vários analistas têm insistido que um entendimento inferior ao de Obama será lido como derrota. Por isso, Trump estará focado em obter resultados antes do encontro com o Presidente chinês, Xi Jinping, na próxima semana - procurando evitar que Pequim chegue com vantagem negocial a temas como taxas alfandegárias, Taiwan, semicondutores e apoio à Coreia do Norte, entre outros. Ainda assim, essa janela parece estar a fechar-se.
“Trump tentará convencer Xi a ajudá-lo a pressionar o Irão para que este suspenda o bloqueio ao estreito de Ormuz e seja mais flexível nas negociações nucleares, e salientará que a China precisa mais da energia do Golfo do que os EUA”, avalia Shea, antigo vice-secretário-geral-adjunto da OTAN para os Desafios Emergentes de Segurança. “Trump provavelmente acolheria bem a mediação chinesa ou o envio de alguns navios da Marinha chinesa para ajudar a manter o estreito aberto. No entanto, é pouco provável que Xi seja útil para além dos habituais apelos chineses para uma solução pacífica para o conflito.”
O fator China
Pequim não ignora que EUA e Israel lançaram a guerra contra o Irão por duas vezes num ano. A China era igualmente signatária do acordo nuclear que Trump revogou, apesar de Teerão não o ter violado. “Se a China aceitar ajudar, provavelmente exigirá uma contrapartida, como o cancelamento da venda de armas americanas a Taiwan”, frisa Shea.
A China sentiu o impacto do encerramento do estreito, mas dispõe de grandes reservas de petróleo, e a sua economia, sustentada pelas exportações, tem resistido. Assim, segundo o antigo responsável da OTAN, Xi “sentir-se-á numa posição forte e não estará inclinado a fazer concessões a Trump”. Em todo o caso, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão deslocou-se a Pequim antes da visita do Presidente norte-americano, para alinhar posições.
Deste modo, se Trump esperava alcançar uma vitória esmagadora sobre o Irão para reforçar a sua posição perante Xi, o efeito parece ter sido o inverso. O líder chinês tem criticado de forma contundente a guerra no Irão, e Pequim tem reiterado o direito de Teerão à autodefesa perante potências externas. Além disso, denunciou as tentativas de Washington de sancionar refinarias chinesas por processarem petróleo iraniano. Embora a China queira estabilidade no Golfo Pérsico e o regresso do transporte marítimo comercial, também conclui que os EUA deixaram de ser um parceiro fiável para negociações.
Apesar de insistir que aniquilou capacidades militares iranianas e programas de armamento nuclear, removendo a ameaça que o país representaria para os EUA ou para Israel, Trump encontra dificuldades em convencer a opinião pública norte-americana (com eleições para o Congresso em novembro) de que a guerra foi bem-sucedida. “Terá mais dificuldade em sustentar este argumento perante os países árabes do Golfo, que continuarão a viver sob a sombra dos drones e mísseis balísticos iranianos, que Teerão ainda possui em grande número e pode facilmente reproduzir”, acrescenta Shea. O mesmo vale para a pretensão de controlo total dos EUA sobre o estreito de Ormuz. “É provável que Trump se retire do Golfo, deixando os países árabes do Golfo a tratar do controlo iraniano sobre o estreito e exercendo pressão periódica sobre estes países.”
Lembrar como começou… e como aqui se chegou
Desde o primeiro momento da guerra, Trump tem proclamado vitória repetidamente e tem exaltado os feitos militares dos EUA. Ainda assim, “tal não se traduziu em resultados concretos no terreno, nem os Estados Unidos alcançaram os seus objetivos declarados”, observa Osamah Khalil, historiador das relações externas dos EUA e do Médio Oriente moderno.
O Irão continua a controlar o estreito de Ormuz; o Governo mantém-se no poder; conserva grandes reservas de mísseis e drones (cerca de 70% a 75%, como confirmado pela Agência Central de Informações (CIA) ao Governo norte-americano e revelado por um trabalho do jornal «O Correio de Washington»); e o seu urânio altamente enriquecido não foi entregue nem apreendido.
“É evidente que o Presidente Trump quer o fim desta guerra”, sustenta Strawson. O poder de fogo norte-americano provocou danos extensos nas infraestruturas militares convencionais associadas à liderança política iraniana, mas o regime sobrevive. E a guerra moderna - sobretudo com drones - evidenciou que o Irão pode continuar a combater e a causar prejuízos aos EUA e aos seus aliados na região, mantendo também a economia mundial refém através do controlo do estreito de Ormuz.
Os EUA terão gasto pelo menos 25 mil milhões de dólares (21 mil milhões de euros) e consumido parte das suas reservas de armamento sofisticado e dispendioso. Em contraste, os iranianos conseguem produzir em massa drones militarizados, com custos entre os 1000 dólares (cerca de 850 euros) e os 35.000 dólares (cerca de 30.000 euros) no caso do Shahed, o modelo mais avançado.
Além disso, “o Irão desferiu golpes devastadores contra bases militares americanas em toda a região e conseguiu impedir a entrada de navios da Marinha dos EUA no Golfo Pérsico”, recorda Khalil, apontando para outra revelação do «O Correio de Washington».
Para James Devine, professor de Relações Internacionais na Universidade de Mount Allison, “se os EUA declarassem vitória agora e abandonassem a guerra, não seria sequer um impasse, uma vez que o Irão controla agora o estreito de Ormuz, o que não acontecia anteriormente”. Ou seja, até ao momento, o saldo líquido do conflito é Trump ter perdido o controlo de uma das vias marítimas estratégicas mais relevantes do planeta.
“A menos que o Estreito de Ormuz seja reaberto à navegação comercial e que a energia e outros produtos petroquímicos regressem aos mercados globais de forma sustentada, o aumento dos preços dos alimentos e dos combustíveis neutralizará qualquer nova declaração de vitória do Presidente Trump”, alerta Khalil.
Ali Alfoneh, especialista do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, considera que as violações do cessar-fogo são “a nova normalidade, pelo menos até às eleições intercalares em novembro, e talvez durante mais tempo”. Por isso, antecipa “provocações recorrentes e trocas de mísseis entre Israel, EUA e Irão, enquanto as três partes mantêm a ficção de um cessar-fogo”.
“A guerra é impopular nos Estados Unidos e, com as eleições intercalares a aproximarem-se, o Presidente Trump está interessado em manter a ilusão de que um cessar-fogo está a ser respeitado e que alcançou a maior vitória da História da civilização”, insiste Alfoneh. “Uma campanha militar mais séria prejudicaria a narrativa do Presidente.”
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