A Galeria Municipal do Porto tem, desde ontem, uma nova instalação de grande formato no seu terreiro: "Partilhar", de Pia Camil, que fica patente até 11 de outubro.
"Se a peça servir só para as pessoas se divertirem, já fico satisfeita. Mas estão lá outras camadas para uma leitura política." É assim que a artista mexicana, nascida em 1980, descreve ao JN o que pretende com a obra: que o público a use e a desfrute, mas que também pense no significado de "Partilhar".
Encomenda e linha de trabalho de Pia Camil
A instalação foi encomendada há cerca de um ano por João Laia, curador da mostra, e resulta de uma variação de um percurso que a artista desenvolve desde 2015. "Segue uma ideia de reutilização de materiais, neste caso calças de ganga e t-shirts. As sobras da indústria e das grandes superfícies. É também um trabalho colaborativo, que envolve várias partes, interessa-me essa dimensão. Tive obras similares expostas no México, na Colômbia ou no Japão. Mas esta é a primeira vez que a instalação foi pensada para um espaço ao ar livre", afirma Pia Camil.
"Partilhar" em duas propostas: "Bara, Bara, Bara" e "Blue jeans hammock"
Dividida em dois elementos, "Partilhar" integra "Bara, Bara, Bara", uma espécie de lençol de grandes dimensões construído a partir de t-shirts recolhidas junto de moradores do Porto durante o mês de abril. Em troca, os participantes receberam uma serigrafia de edição limitada da artista. Esta peça foi concebida para poder ser "habitada" pelos visitantes.
O segundo núcleo é "Blue jeans hammock", que se materializa em seis camas de rede feitas a partir de calças de ganga. O desenho das duas obras é da autoria de Pia Camil, mas a execução coube a costureiras do Porto, responsáveis por dar forma ao conjunto.
Entre o lado lúdico e as leituras políticas da instalação
Para lá da componente de fruição, a artista associa "Partilhar" a temas como sustentabilidade ambiental, políticas laborais, fronteiras e migrações: "Uma destas peças foi feita nos EUA e tinha em mente o cruzamento de fronteiras pelos mexicanos. É um trabalho que apela ao diálogo e à partilha entre povos. É um espaço público onde as pessoas se encontram e se podem divertir e trocar ideias", sublinha a artista, radicada na Cidade do México.
Concebida para convidar "à interação, à brincadeira e ao descanso", a instalação apresenta-se como uma obra que "ganha vida com a participação do público".
Relação com o Porto e condições de visita
A ligação ao Porto - cidade que Pia Camil visitou pela primeira vez agora - manifesta-se, segundo a própria, tanto na recolha local dos materiais como no trabalho de costura realizado na Invicta. A artista esteve também presente, na quinta-feira, numa das sessões do ciclo Conversas de Galeria.
A obra sucede a "Praia de Ruínas", projeto do artista e arquiteto grego Andreas Angelidakis, que inaugurou, em 2025, esta "iniciativa de comissões" para o terreiro da Galeria Municipal. "Partilhar" pode ser visitada gratuitamente no horário de abertura dos Jardins do Palácio de Cristal, entre as 8 e as 21 horas.
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