Porto quer transformar a antiga sede da PIDE no Museu da Resistência
Cerca de 600 pessoas saíram à rua este sábado, no Porto, numa marcha que procurou reforçar a ambição de ver a antiga sede da PIDE convertida num Museu da Resistência. A iniciativa foi organizada pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e, nas palavras de Teresa Lopes, pretendeu sublinhar que "Um povo sem memória, repete os erros do passado".
Apesar da chuva intensa que se fez sentir durante a manhã e na hora de almoço - que terá afastado alguns participantes, sobretudo entre os mais velhos -, a presença de uma multidão foi entendida como "um bom auspício" para quem defende o projeto. A caminhada, que terminou na rua de Santa Catarina, decorreu com uma trégua do tempo ao longo de todo o percurso.
Memória no Heroísmo: Maria José Ribeiro e o testemunho dos sobreviventes
À cabeça da marcha seguiu Maria José Ribeiro, de 90 anos, vítima de tortura e espancamentos às mãos da polícia política do regime. Antes do início do percurso, junto ao busto de Virgínia Moura - também resistente antifascista -, ao lado do Museu Militar, na rua do Heroísmo, lembrou o significado do local, antiga sede da PIDE entre 1936 e 1974.
"É urgente que a memória dos milhares de pessoas que sofreram ali naquele edifício, que foram torturados e espancados, seja preservada", afirmou. E insistiu na força simbólica do espaço: "Este é o lugar ideal para dizer que o povo não esquece".
Maria José Ribeiro defendeu ainda que "O povo do Porto merece e os resistentes e as suas famílias esperam que o tributo seja finalmente cumprido". Para a antiga presa política, o museu é também uma ferramenta de transmissão entre gerações: "As novas gerações necessitam deste espaço de preservação de memória histórica como ferramenta de defesa do património democrático que lhes é legado e lhes vai permitir a construção de um futuro mais feliz".
A oradora recordou que pelo edifício do Heroísmo passaram mais de 7600 presos políticos no Porto. Dois morreram nos calabouços, enquanto outros saíram de lá "presos por um fio de vida" que acabou por se quebrar já no hospital.
Abril, juventude e o alerta contra o fascismo
A mobilização juntou, pelo menos, 600 pessoas de várias idades, com cravos ao peito - na lapela, bordados ou presos em sacos de pano -, num protesto que evocou Abril e contestou o fascismo, sublinhando que a luta continua atual.
O presidente da Associação de Estudantes da Escola Artística Soares dos Reis, Rui Rodrigues, salientou que "A resistência antifascista não é um artefacto histórico. O passado é algo presente". E enquadrou o apelo na realidade contemporânea: "Olhando para a nossa realidade, apercebemo-nos do assustador aumento de grupos neonazis, partidos de extrema-direita e fascistas. E, também, da sua crescente força social. Recusamo-nos a aceitar a ideia de que a juventude não quer saber. A juventude é a maior detentora da força" capaz de contrariar essa tendência.
Rui Rodrigues deixou ainda um aviso sobre a natureza do fenómeno: "O fascismo nunca foi nem nunca será um devaneio de carácter ou de maldade". E reforçou o enquadramento democrático da mobilização: "A luta anti-fascista é a base da democracia. É a estrutura elementar de todas as nossas liberdades. A liberdade de organização e expressão. E é a luta contra todas as questões antidemocráticas nas suas violentes e opressivas materializações, como foi a ditadura fascista em Portugal".
No mesmo momento, num discurso que envolveu participantes de diferentes gerações, reiterou a importância da memória histórica: "Quando temos memória, não deixamos que reescrevam a história". E acrescentou: "Não esquecemos os 48 anos de ditadura e os resistentes que nunca deixaram de lutar".
Moção em Santa Catarina e apelos às instituições do Porto
Já na reta final, Maria José Ribeiro voltou a vincar a determinação do grupo: "Decidimos que devemos lutar até ao fim para que a memória seja preservada e não volte a acontecer um regime fascista, opressor e repressor".
O passo seguinte, explicou, será pressionar para que seja cumprida a última resolução aprovada na Assembleia da República em 26 de Setembro de 2025, que recomenda ao Governo que apoie a implementação em curso do projeto museológico do Heroísmo. Essa exigência ficou expressa numa moção aprovada pelos manifestantes no fim da marcha, na rua de Santa Catarina.
No texto, os participantes voltaram a afirmar "a importância de não esquecer o tempo tenebroso da ditadura, valorizando a resistência que lhe foi imposta" - resistência que, acrescentaram, abriu caminho aos militares do 25 de Abril - e apontaram ainda ao que consideram ser "dando sério combate à descarada reescrita da historia e branqueamento do período fascista a que temos vindo a assistir."
Num documento onde se renovou "a exigência da instalação do Museu da Resistência Antifascista no edifício do Heroísmo", foi também dirigido um apelo às instituições da cidade: às autarquias, em particular à Câmara Municipal, às instituições de ensino, nomeadamente à Universidade, e às estruturas associativas e culturais, "para que abracem este projeto intervindo para o tornar realidade."
Alfredo Maia (PCP) critica demora do Governo
O deputado do PCP Alfredo Maia, eleito pelo círculo do Porto, considerou que o Governo continua a tardar em concretizar a resolução, classificando essa demora como parte da resistência à causa dos resistentes.
"Além da tentavita de apagar as conquistas de Abril, está em marcha um processo de branqueamento do passado fascista em Portugal e da violência de um regime que perseguiu, prendeu e torturou milhares de pessoas", afirmou.
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