Amadorismo e a leitura de Djaimilia Pereira de Almeida
Há algum tempo li a dissertação de mestrado de Djaimilia Pereira de Almeida, um verdadeiro elogio do amadorismo. Nela, afirma-se que o amador não o é por escolha deliberada: simplesmente descobre que o é, como um rapaz que se dá conta "de que a sua voz mudou". Ainda que o exemplo seja apresentado apenas como hipótese - e logo a seguir seja retirado -, dar por si amador, seja qual for o timbre da voz, parece-me resultado de uma entrega sem cálculo, com uma virtude rara: pode não valer nada e, ao mesmo tempo, valer tudo.
Djaimilia Pereira de Almeida propõe, aliás, que o amador autêntico não é exactamente o inverso do profissional; é, antes, o inverso do cínico. A paixão por um tema ou por uma prática não chega a ser domada, nem engolida por exigências exteriores, nem sequer diminuída ao estatuto de simples passatempo.
A paixão fica intacta, quase pura, com uma inocência que resiste. Para tentar dizê-lo de outro modo, podia falar do pombal do meu pai. Um dia - não agora, porque nem todos podem assistir aos voos em bando daquelas aves de competição -, seria possível ver também, como eu vejo, o quão alto o meu pai voa com elas.
Num Se Desgrace: um canal do YouTube entre arte, cultura e desgraça
Por isso, prefiro falar de Num Se Desgrace, um canal do YouTube criado há um ano, onde se publicam vídeos sobre "arte, cultura e desgraça". O registo é tão amador que comove, porque o é no sentido mais feliz da palavra: o autor, anónimo, tem uma obsessão por assuntos da cultura pop portuguesa e um interesse tão genuíno que a falta de meios - vídeos montados a cuspo - acaba por funcionar como uma qualidade.
Há ali, sem resto, alguém que se apaixonou. O autor tanto se dedica ao Macaco Adriano como à pintura de Vieira da Silva; fala de João Quadros e do assassinato de Miguel Bombarda; e também de Cândida Branca Flor, Jorge Martinez, Herman José e Alberto Pimenta. Os Painéis de São Vicente nunca andaram lado a lado com Zezé Camarinha, mas naquele canal essa vizinhança é possível - e, pior ainda, soa a uma espécie de harmonia.
Profundidade inesperada e ausência de cinismo
Eu fico preso ao modo como o autor se deixa prender: é esse cativamento que me captura. E depois continuo agarrado pela variedade, pela densidade com que trata assuntos supostamente leves, e pelas horas investidas - sabe-se lá em que horário pós-laboral - para me oferecer dez minutos de sabedoria inútil, e no entanto indispensável para entender Portugal nas últimas décadas.
Também aqui o autor é amador naquele outro sentido bonito que Djaimilia Pereira de Almeida sublinha: por ser o contrário de um cínico. Entrega-se a cada vídeo sem pose, com entusiasmo, e com a confiança de que os outros acabarão por se interessar pelo que a ele lhe importa.
E tem razão: Num Se Desgrace, por muito amador que seja, não se desgraça.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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