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Rui Couceiro: "A mais bela maldição", uma poderosa declaração de amor aos livros

Homem sentado no chão rodeado de pilhas de livros, lendo atentamente numa sala iluminada.

A primeira incursão de Rui Couceiro na não-ficção, "A mais bela maldição", afirma-se como uma intensa declaração de amor aos livros.

Um "inspirador" recuperado pela não-ficção de Rui Couceiro

De tão repetida - e muitas vezes maltratada - nos eufemisticamente chamados livros de desenvolvimento pessoal, a palavra "inspirador" foi perdendo a força de outrora. Ainda assim, é precisamente esse o termo que surge, quase inevitavelmente, quando o leitor fecha "A mais bela maldição", o livro de estreia na não-ficção da mais marcante revelação da literatura portuguesa desta década.

Dez histórias e uma figura comum: o leitor devoto

Ao longo das dez narrativas reunidas, impõe-se um traço partilhado: a presença do leitor devoto que, independentemente do seu percurso e das suas circunstâncias, encontrou nos livros um novo sentido para a vida.

Rui Couceiro constrói, assim, uma espécie de mapa-mundo literário para mostrar até que ponto os livros podem ser transformadores. De Itália ao Brasil, de Marrocos aos Estados Unidos, sem deixar de lado os mais próximos Açores e a Póvoa de Varzim, o autor de "Morro da Pena Ventosa" oferece-nos retratos profundamente humanos dos "amantes incorrigíveis dos livros", como escreve Irene Vallejo.

Destinos contrariados em nome dos livros

Em nome desse amor, vários dos protagonistas desafiaram o que parecia estar traçado. É o caso do poeta José Alberto Postiga: destinado à pesca, como o resto da família, agarrou-se aos livros como um náufrago em mar alto, abrindo novos horizontes.

Ou o norte-americano Reginald Dwayne Betts. Preso aos 16 anos por "carjacking", percebeu, enquanto estava numa cela de isolamento, que os livros lhe permitiam concretizar todos os sonhos. Licenciou-se em Direito na Universidade de Yale, tornou-se um poeta premiado e lançou um projecto revolucionário que disponibiliza bibliotecas inteiras a centenas de prisões.

Entre estes leitores, alguns - como o gasolineiro açoriano Gabriel Melo, especialista em Prémios Nobel da Literatura, ou o advogado José Paulo Cavalcanti Filho, cuja devoção a Fernando Pessoa o levou a ser, além de biógrafo, coleccionador de objectos do poeta - vivem essa paixão de forma mais solitária. Outros, porém, escolhem a dimensão solidária.

É nesse grupo que se encontram Martin Weskott, pastor que salva livros da destruição, e o colombiano José Alberto Gutiérrez, cujo trabalho de promoção da leitura foi reconhecido pelo Governo do seu país.

Mesmo separados, por vezes, por milhares de quilómetros, todos integram uma irmandade secreta que, ao contrário de tantas outras, não procura poder, fama ou fortuna, mas algo ainda mais ambicioso: transformar o mundo.

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