Saltar para o conteúdo

Javali aproxima-se da agricultura e intensifica conflitos no mundo rural

Homem com roupa de campo e chapéu escreve em bloco numa plantação perto de um javali selvagem ao pôr do sol.

Javali, agricultura e áreas florestais: um conflito crescente no mundo rural

A crescente aproximação do javali a zonas agrícolas e a áreas florestais continua a alimentar tensões no mundo rural, colocando frente a frente quem trabalha a terra e a fauna selvagem. Carlos Fonseca, investigador da Universidade de Aveiro, reconhece que "Há muitas queixas por parte de agricultores e produtores florestais".

Queixas anuais e danos em pastagens, lameiros e castanheiros

Em Bragança, Mário Gomes, presidente da União das Freguesias de Aveleda e Rio de Onor - cujas aldeias se inserem na Zona Nacional de Caça da Lombada, uma das maiores do país - disse ao JN que "muitos agricultores" relatam prejuízos provocados pela caça grossa todos os anos.

O autarca descreve que, nesta fase do ano, os estragos tendem a concentrar-se sobretudo onde já existe alimento disponível: "Nesta altura verificam-se muitos danos nas pastagens, nos lameiros, porque ainda há poucas culturas nas hortas, que foram plantadas há pouco tempo. Todos os anos há queixas. É inevitável, pois há danos até nos castanheiros e as pessoas zangam-se".

Indemnizações raras e processos considerados burocráticos

Apesar da recorrência dos estragos atribuídos a javalis e veados, quem é afetado acaba frequentemente por suportar os prejuízos, por falta de apoios ou por dificuldade em aceder a compensações. Segundo Mário Gomes, a experiência local tem levado muitos a desistir: "Na minha freguesia, as pessoas desistiram de pedir que lhe paguem os prejuízos. Não têm retorno e o processo é burocrático, complicado e ninguém se responsabiliza".

Responsabilidade das associativas de caça e proposta de cadeias de valor

O ICNF explicou ao JN que, "segundo a lei", os prejuízos causados por animais devem ser compensados pelas associativas de caça, já que "as entidades gestoras são responsáveis pelos danos".

Ainda assim, Carlos Fonseca assinala limitações frequentes neste modelo: muitas dessas associativas são estruturas pequenas, com quotas reduzidas, e "Não têm grandes recursos financeiros" para suportar indemnizações ligadas a fauna selvagem.

Como alternativa, o investigador defende a criação de dinâmicas locais, envolvendo juntas de freguesia e câmaras municipais, para encontrar formas de valorizar estas espécies, nomeadamente pela via gastronómica. "São animais que têm um valor considerável em termos de carne de caça. É preciso criar cadeias de valor para que esse retorno fique nos territórios onde os animais causam prejuízos", sublinha.

Javalis em zonas urbanas e preocupações sanitárias

A situação não se limita ao território português. Têm-se multiplicado registos de javalis a aproximarem-se de ecossistemas urbanos, com imagens em cidades como Barcelona e Berlim. Em Portugal, há avistamentos sobretudo na Arrábida (Setúbal), mas também em Coimbra.

Para Carlos Fonseca, este padrão revela uma ocupação crescente de habitats onde, até há pouco tempo, o fenómeno era menos expectável: "O javali está a ocupar cada vez mais ecossistemas que há pouco tempo não eram tão prováveis e temos de aprender a viver com eles". Ao mesmo tempo, lembra que se trata de um animal selvagem, o que levanta cautelas, incluindo ao nível sanitário: "As pessoas não podem e não devem ter o mesmo comportamento que tem com animais domésticos".

Apontamentos

Início com 14 áreas

O plano de ação começou com um estudo inicial em 14 áreas piloto para implementar o projeto (cada área corresponde a uma unidade de gestão que integra uma ou mais zonas de caça). Estas áreas foram escolhidas por representarem as realidades cinegéticas (tipologias de zonas de caça), a variabilidade ambiental e ecológica do país e ainda diferentes formas de gestão e usos do solo.

Duas adicionadas

Para suprir lacunas geográficas na amostragem, foram acrescentadas duas áreas piloto. No conjunto, foram consideradas 16 áreas piloto num total de 21 zonas de caça, incluindo também o Parque Natural da Arrábida.

Controlo

No âmbito do controlo populacional da espécie à escala nacional, foi proposta uma redução entre 20 a 30%, num período de 5 a 10 anos.

Dados

1674

atropelamentos de fauna em estradas registados pela Infraestruturas de Portugal em 2024

1403

acidentes com animais foram registados pela GNR no primeiro semestre de 2025


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário