A dimensão é o primeiro impacto. A unidade fabril da Zeekr situa-se em Hangzhou Bay, em Ningbo, uma das áreas industriais mais relevantes do delta do rio Yangtzé. O complexo estende-se por 7,9 milhões de m² - o equivalente a cerca de 1100 campos de futebol.
Nesta instalação não saem apenas automóveis Zeekr: também ali são montados modelos da Polestar, seguindo a lógica industrial do Grupo Geely. A marca ajudou a criar um ecossistema produtivo capaz de suportar diferentes posicionamentos comerciais e vários mercados. O resultado é uma estratégia que dilui o custo dos investimentos, encurta tempos de desenvolvimento e permite ganhar escala mais depressa.
Uma fábrica do futuro
A fábrica encontra-se na chamada “Ala Sul Dourada” do delta do rio Yangtzé e entrou em operação no terceiro trimestre de 2021, após as obras terem começado no final de 2018.
Mais do que uma fábrica convencional, trata-se de uma unidade industrial integrada. Nela estão reunidas as etapas-chave de produção de um automóvel atual: estampagem, soldadura, pintura, montagem final, logística, controlo de qualidade e ensaios finais. O edifício principal dedicado à produção tem cerca de 150 mil m², inserido num complexo industrial consideravelmente maior.
A conceção segue a ambição de ser uma das primeiras “fábricas do futuro” da província de Zhejiang, um conceito assente na combinação de 5G, inteligência artificial e recolha intensiva de dados industriais. No centro desta arquitetura está o que a Zeekr designa por “Cérebro Digital”: uma camada digital que monitoriza a operação, cruza dados de produção e apoia a coordenação entre eficiência, qualidade e flexibilidade.
Nesta lógica, tudo é registado, sincronizado e ajustado em tempo real. No dia da visita, a produção rondava os 300 carros, embora a capacidade máxima anunciada seja de 1200 automóveis por dia. Entre a entrada de materiais em bruto na linha e a saída de um veículo da fábrica passam cerca de 15 horas, num ritmo que pode aproximar-se de menos de um carro por minuto.
Flexibilidade é palavra de ordem
O fluxo começa nas áreas de estampagem e construção da carroçaria. A secção de estampagem utiliza uma linha automatizada preparada para fabricar várias peças a partir de um único molde. Foi também aqui que a Zeekr recorreu, pela primeira vez na China, à gigafundição, procurando reduzir complexidade, acelerar o fabrico e garantir maior repetibilidade industrial.
Na soldadura, a automação torna-se ainda mais evidente. Atualmente, esta zona opera com 885 robôs de soldadura e menos de 100 funcionários. A taxa de automação nesta fase aproxima-se dos 100%, o que permite trabalhar diferentes plataformas e modelos com elevada flexibilidade.
Segue-se a pintura, onde são aplicadas tecnologias orientadas para a qualidade do acabamento e para a redução do impacto ambiental. Já na montagem final, a fábrica utiliza uma lógica “C2M”, isto é, “do cliente para o fabricante”, que viabiliza milhões de configurações personalizadas por modelo, além de padrões de processo específicos.
Esta capacidade de adaptação é um dos pilares do projeto. A Zeekr refere que, das cinco linhas existentes, quatro já operam com níveis de automação na ordem dos 95%. Toda a unidade foi pensada para alternar configurações, versões e modelos com menos fricção - num setor em que os ciclos de produto encurtam e a personalização ganha cada vez mais peso.
Poucos humanos e muitos robôs
Há pessoas na linha, mas a presença humana é mais discreta do que se esperaria numa fábrica desta dimensão. Ao longo da montagem trabalham cerca de 800 funcionários, enquanto uma parte significativa da circulação interna depende de robôs de transporte. No chão de fábrica, os nomes que mais aparecem são KUKA e ABB, as duas marcas que dominam o parque de robótica.
No total, circulam cerca de 600 robôs de transporte, encarregues de mover peças, subconjuntos e componentes entre as várias fases da produção. Esta logística interna automatizada é determinante para sustentar o ritmo da linha e cortar tempos mortos entre operações.
É precisamente aqui que a fábrica da Zeekr se afasta da imagem clássica de uma linha de montagem automóvel. As etapas continuam a ser reconhecíveis, mas a coordenação entre elas é cada vez mais dependente de dados, sensores, sistemas digitais e veículos autónomos internos.
A primeira fábrica da China com gigafundição
Um dos aspetos tecnicamente mais relevantes desta fábrica inteligente da Zeekr é a adoção da gigafundição. A marca afirma ter sido o primeiro construtor chinês a aplicar este processo em grande escala, com recurso a máquinas de fundição de 7200 toneladas.
Na prática, a gigafundição permite fabricar grandes peças estruturais em alumínio numa única operação, substituindo múltiplos componentes que, num processo tradicional, teriam de ser estampados, soldados e unidos ao longo de várias etapas. As vantagens passam pela simplificação da estrutura, pela redução do número de peças, por uma maior repetibilidade industrial e pelo potencial de diminuir peso e custos.
Esta abordagem tem ganho importância na indústria automóvel - sobretudo entre fabricantes de veículos elétricos - por ajudar a acelerar a produção e a simplificar arquiteturas. Em contrapartida, exige um controlo industrial muito rigoroso: quando uma peça estrutural concentra tantas funções, a precisão do processo torna-se ainda mais crítica.
Controlo de qualidade
A visita permitiu ainda perceber como é feito o controlo final de qualidade antes da entrega. Todos os automóveis passam por uma pista de testes de 3 km dentro do complexo, onde são avaliados ruídos, vibrações, travagem, direção e o funcionamento global.
Cada veículo é também submetido a um teste de estanquicidade. Durante seis minutos, são despejadas cerca de duas toneladas de água sobre o carro, simulando condições de chuva intensa. O objetivo é confirmar a inexistência de infiltrações antes de o veículo seguir para a fase final de inspeção.
O processo de qualidade inclui, além disso, verificações comerciais, regulamentares e de pré-entrega. A recolha de dados acompanha várias etapas e permite rastrear cada automóvel ao longo do fabrico, desde as primeiras operações até ao controlo final.
Não produz apenas Zeekr
Há um ponto essencial: esta unidade não se limita a fabricar Zeekr. Durante a visita, foi possível confirmar que também são montados modelos da Polestar nas mesmas instalações, lado a lado com os automóveis da Zeekr - incluindo o Polestar 4.
Este detalhe ajuda a entender a lógica industrial do Grupo Geely, que não está apenas a multiplicar marcas. Em paralelo, está a consolidar uma base produtiva comum, apta a servir diferentes posicionamentos comerciais e diferentes mercados com a mesma infraestrutura técnica. É uma estratégia que permite diluir investimentos, acelerar desenvolvimento e ganhar escala.
A marca de Kimi Räikkönen
A Zeekr pretende afirmar-se como uma marca elétrica premium, tecnológica e rápida a desenvolver produtos, mas também com capacidade de afinação para lá dos números de aceleração e autonomia.
Por isso, procura associar esta capacidade industrial a uma imagem de desempenho. Um dos nomes usados para reforçar essa ligação é Kimi Räikkönen, ex-campeão do mundo de Fórmula 1, que tem colaborado como consultor de desempenho da marca.
O que diz esta fábrica sobre a indústria chinesa?
O que foi possível observar em Ningbo ajuda a explicar porque tantas marcas chinesas conseguem lançar novos modelos, atualizar tecnologias e reagir ao mercado a uma velocidade difícil de igualar na Europa. Para os construtores europeus, competir com automóveis chineses já não é apenas enfrentar preços inferiores: é medir forças com uma nova geração industrial.
Enquanto a Europa discute tarifas, restrições à contratação de fornecedores e protege construtores e fornecedores europeus numa bolha regulatória, a China continua a acelerar para ganhar vantagem. O mais interessante? Está a fazê-lo com a ajuda de construtores, fornecedores e cérebros europeus, americanos e japoneses…
Zeekr entra em Portugal este ano
A Zeekr prepara a sua entrada oficial em Portugal. A marca chinesa, pertencente ao Grupo Geely, vai iniciar a presença no mercado nacional com três modelos já em maio de 2026: o Zeekr 001, o Zeekr X e o Zeekr 7X.
A ofensiva ficará completa após o verão, com a chegada do Zeekr 7GT, um modelo que terá apresentação europeia na terceira semana de junho. Ainda não existe uma data final para o arranque da comercialização em Portugal, nem preços oficiais para a gama nacional.
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