Cientistas analisaram gases libertados por fontes geotérmicas na Zâmbia e os resultados apontam para que a Fenda de Kafue tenha atravessado a crosta terrestre, podendo "eventualmente tornar-se um novo limite de placa tectónica", segundo um artigo divulgado esta terça-feira.
Assinaturas de hélio nas fontes termais da Fenda de Kafue (Zâmbia)
"As fontes termais ao longo da fenda de Kafue, na Zâmbia, apresentam assinaturas isotópicas de hélio que indicam que têm uma ligação direta com o manto da Terra [camada intermédia entre a crosta terrestre e o núcleo], que se encontra entre 40 e 160 quilómetros abaixo da superfície", refere Mike Daly, da Universidade de Oxford, um dos autores do artigo.
De acordo com o investigador, "Esta ligação fluida é uma prova de que o limite da falha da fenda de Kafue está ativo e, portanto, a Zona de Rift [fratura tectónica gigante] do sudoeste africano também está e pode ser um indício precoce da fragmentação da África subsariana", explica, citado num comunicado da editora científica Frontiers.
Zona de fendas com 2500 km e possível impacto no futuro de África
A Fenda de Kafue integra uma zona de fendas com 2500 km de extensão, que se prolonga da Tanzânia até à Namíbia e que poderá alcançar a Dorsal Mesoatlântica - a maior cordilheira de montanhas submarinas do mundo - a qual atravessa a região central do Oceano Atlântico e o Ártico.
Segundo o comunicado, os cientistas direcionaram a atenção para a área devido à topografia, que sugeria a existência de uma potencial nova fenda, e também por se observarem níveis elevados de anomalias geotermais e a presença de fontes termais.
No mesmo texto, assinala-se que "A descoberta de que a Fenda de Kafue está ativa pode ter importantes consequências económicas", especificando que "as fraturas [geológicas] em fase inicial podem fornecer energia geotérmica e acesso a hélio e hidrogénio".
Ainda assim, o impacto "mais significativo" poderá refletir-se "para o formato futuro de África". "Muitas das características do Grande Vale do Rift do Quénia constituem razões convincentes para pensar que a África Oriental se torne, em última análise, uma importante linha de fratura continental", diz Daly.
Amostragem de gás e próximos passos da investigação
Para obter as amostras analisadas, a equipa visitou oito poços e fontes geotérmicas na Zâmbia: seis localizados na zona de fenda suspeita e dois fora dessa área.
Daly sublinha, contudo, que o trabalho assenta "em análises de hélio de uma área na zona de Rift no sudoeste de África, que tem milhares de quilómetros de comprimento"; por isso, defende a necessidade de investigação mais abrangente. A etapa seguinte, acrescentou, "estará concluída este ano".
O estudo foi publicado na revista científica "Frontiers in Earth Science".
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