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Vacas pretas com riscas brancas receberam 50% menos moscas que picam

Vaca preta e branca num campo com moscas à volta e pessoa a aplicar spray repelente com pincel.
Neste artigo
  1. O que aconteceu quando os cientistas pintaram as vacas?
  2. Que sinais indicaram que os insetos incomodavam menos?
  3. Porque é que as riscas de zebra confundem as moscas?
  4. A experiência ajuda a explicar porque as zebras têm riscas?
  5. As riscas poderiam ajudar o gado a depender menos de inseticidas?

Cientistas pintaram vacas pretas com riscas brancas semelhantes às de uma zebra e obtiveram um resultado expressivo: os animais receberam aproximadamente 50% menos moscas que picam do que quando mantinham a pelagem inteiramente preta. A experiência reforça uma das explicações mais aceites para a coloração das zebras: as faixas pretas e brancas tornam mais difícil a aterragem de insetos hematófagos no corpo.

O que aconteceu quando os cientistas pintaram as vacas?

A investigação envolveu seis vacas da raça Japanese Black, naturalmente pretas, expostas a três condições distintas. Em determinados dias, foram-lhes aplicadas riscas brancas com cerca de 4 a 5 centímetros de largura. Noutras ocasiões, receberam riscas pretas, para avaliar se o cheiro ou o contacto com a tinta poderia influenciar os resultados. Houve também períodos em que os animais não foram pintados.

As fotografias recolhidas durante a observação permitiram contabilizar os insetos pousados no corpo e nas patas. Nas vacas com o padrão preto e branco, o número de moscas foi quase metade do registado quer nos animais sem pintura, quer nos que tinham apenas faixas pretas. Como estes dois últimos grupos apresentaram resultados semelhantes, a diferença não pode ser atribuída apenas à tinta.

Que sinais indicaram que os insetos incomodavam menos?

Os investigadores não se limitaram a contar as moscas que chegavam aos bovinos. Ao longo de períodos de 30 minutos, registaram igualmente os movimentos usados pelas vacas para afastar os insetos. Foram observados os seguintes comportamentos:

  • abanar ou lançar a cabeça;
  • mexer repetidamente as orelhas;
  • bater as patas no chão;
  • contrair a pele para expulsar insetos;
  • movimentar a cauda para afastar as moscas.

As vacas com aspeto de zebra realizaram cerca de 39,8 destes movimentos em 30 minutos, face a 53 nos animais não pintados e 54,4 nos que receberam riscas pretas. Esta redução acompanhou a menor presença de moscas pousadas no corpo, sugerindo que as faixas não mudaram apenas o aspeto dos bovinos: também reduziram parte do incómodo causado pelos parasitas.

Porque é que as riscas de zebra confundem as moscas?

O mecanismo preciso continua a ser estudado, mas os indícios apontam para uma interferência sobretudo na fase final da aproximação. Experiências com zebras e cavalos revelaram que os tabanídeos conseguem aproximar-se de ambos, mas enfrentam muito mais dificuldades em abrandar e aterrar de forma controlada sobre superfícies às riscas.

O contraste entre branco e preto poderá perturbar os sinais visuais que o inseto utiliza para calcular a velocidade e a distância até à superfície. Assim, em vez de atuar como repelente químico, a pelagem às riscas parece criar uma dificuldade visual no momento da aterragem. Continuam, contudo, a existir várias hipóteses sobre a forma exata como este efeito ocorre.

A experiência ajuda a explicar porque as zebras têm riscas?

Ao longo do tempo, foram avançadas diversas explicações para o padrão destes animais. As riscas foram associadas à camuflagem, ao reconhecimento entre indivíduos, à confusão de predadores, à regulação da temperatura corporal e à proteção contra parasitas. À medida que as experiências se acumularam, a hipótese ligada às moscas que picam reuniu evidências particularmente fortes.

  • as superfícies às riscas recebem menos aterragem de tabanídeos;
  • cavalos cobertos por mantas às riscas atraem menos aterragens na zona tapada;
  • as zebras têm menos aterragens bem-sucedidas do que os cavalos de pelagem uniforme;
  • as vacas pintadas reproduziram o efeito, apesar de não possuírem riscas naturais;
  • estudos visuais encontraram pouco apoio para a ideia de que as faixas sirvam principalmente de camuflagem contra grandes predadores.

Isto não quer dizer que uma única experiência com seis vacas tenha, por si só, resolvido um antigo debate evolutivo. O resultado junta-se a trabalhos anteriores com zebras, cavalos e modelos artificiais, formando um conjunto de indícios de que evitar ectoparasitas terá provavelmente exercido uma pressão relevante na evolução do padrão às riscas.

As riscas poderiam ajudar o gado a depender menos de inseticidas?

Para a pecuária, o resultado é relevante porque as moscas hematófagas não causam apenas desconforto. Infestações intensas levam o gado a gastar energia a abanar a cabeça, a bater as patas e a mover a cauda, além de prejudicarem o pastoreio e o descanso. Os autores sugeriram que padrões semelhantes aos das zebras poderiam ser estudados como medida complementar para reduzir ataques sem depender exclusivamente de pesticidas.

A experiência apresenta ainda limitações práticas: pintar cada animal demorou cerca de cinco minutos e a tinta à base de água desaparecia ao fim de poucos dias, enquanto a época das moscas pode prolongar-se durante meses. Ainda assim, transformar temporariamente vacas pretas em animais às riscas reduziu aproximadamente 50% das aterragens, numa demonstração invulgar de como uma característica desenvolvida na natureza pode inspirar estratégias para proteger animais domésticos de insetos que picam.

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Marta Filipa Correia

Marta Filipa Correia é engenheira agrónoma e investigadora em sistemas agroflorestais mediterrânicos, com especialização no cultivo e valorização da maquiave. Dedica-se ao estudo da ecologia da planta, boas práticas de colheita e transformação tradicional, bem como ao seu potencial gastronómico e sustentável. É também autora de conteúdos sobre biodiversidade rural e usos etnobotânicos associados à maquiave.

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