Já se perguntou o que acontece a uma floresta muito tempo depois de as pessoas deixarem de cortar árvores? A natureza recupera sempre por si só ou haverá algo capaz de travar esse processo?
Nas florestas tropicais húmidas de Madagáscar, os cientistas têm procurado responder precisamente a essa pergunta. O que descobriram foi inesperado.
No interior do Parque Nacional de Ranomafana, classificado como Património Mundial da UNESCO desde 1991, uma pequena árvore de fruto está silenciosamente a alterar o futuro da floresta.
A goiaba impede a recuperação da floresta
A bióloga Amy Dunham, da Universidade Rice, estuda há décadas as florestas tropicais montanhosas de Ranomafana. O parque alberga animais raros, uma flora diversificada e lémures célebres que não existem em mais nenhum local do planeta.
Num projecto recente, Dunham colaborou com o ecólogo Matt McCary, também da Universidade Rice, e uma equipa de investigadores norte-americanos e malgaxes. Em conjunto, analisaram uma planta conhecida como goiabeira-morango.
O objectivo da equipa era perceber de que forma esta planta influencia a recuperação florestal em zonas anteriormente afectadas pela desflorestação.
Embora o abate de árvores tenha terminado há muitos anos em algumas dessas áreas, a floresta ainda não recuperou por completo. A goiabeira-morango parece ser a causa.
A goiabeira-morango invasora propaga-se depressa
A goiabeira-morango não é originária de Madagáscar: vem do Brasil. Foi introduzida na ilha durante o período colonial, no século XIX.
Inicialmente, a planta pareceu útil. Os seus caules lenhosos e resistentes constituem um bom material de construção. Os frutos vermelhos e vivos têm um sabor doce, atraindo pessoas e animais. Os lémures, ameaçados de extinção e admirados em todo o mundo, comem frequentemente estes frutos.
Contudo, a goiabeira-morango dissemina-se rapidamente em locais onde a copa das árvores foi danificada. Quando as árvores são cortadas e a luz solar chega ao solo, a planta cresce depressa e cria manchas densas.
A regeneração da floresta fica bloqueada
Depois de uma perturbação florestal, como o corte de árvores, inicia-se normalmente um processo gradual e contínuo. Primeiro surgem plantas pequenas, depois germinam plântulas de árvores e, com o passar do tempo, voltam árvores maiores que reconstituem a copa.
“Após uma perturbação da floresta, esperaríamos normalmente observar um processo gradual de regeneração natural”, afirmou Dunham.
“O nosso estudo mostra que, quando a goiabeira-morango se estabelece, esse processo de regeneração natural pode estagnar, interrompendo a recuperação das espécies nativas numa fase inicial e alterando as comunidades de solo, insectos e plantas que sustentam o resto da floresta.”
Em vez de avançar, a recuperação da floresta fica parada.
O solo e os insectos sofrem alterações
A equipa de investigação comparou parcelas florestais dominadas por goiabeiras com zonas próximas sem goiabeiras. Os cientistas examinaram a vegetação, os insectos, o solo e as árvores jovens.
As alterações foram visíveis em quase todo o ecossistema. O solo nas zonas com goiabeiras continha menos nutrientes, com níveis inferiores de carbono, azoto, amónia e matéria orgânica. Como um solo saudável é essencial ao crescimento das plantas, esta diferença é relevante.
As manchas de goiabeiras também formavam camadas espessas de vegetação sob a copa principal. A vegetação do sub-bosque tornou-se mais de três vezes mais densa.
No chão da floresta, viviam menos tipos de insectos, sendo dominante apenas um pequeno grupo de decompositores. E, no caso das árvores jovens, verificou-se algo ainda mais surpreendente.
Havia plântulas tanto nas zonas com goiabeiras como nas áreas sem esta espécie. A diversidade e a quantidade de plântulas pareciam semelhantes. À primeira vista, isto parecia positivo, mas o crescimento parava na fase de plântula.
As plântulas não conseguem tornar-se árvores adultas
“A presença de plântulas de árvores que não são goiabeiras, com a mesma densidade e diversidade em ambos os conjuntos de parcelas, demonstra que as árvores nativas conseguem germinar”, declarou Julieanne Montaquila, coautora do estudo.
“Mas as parcelas invadidas permanecem bloqueadas na fase de plântula, incapazes de avançar para a etapa seguinte do ciclo de regeneração.”
As plântulas parecem saudáveis no início, mas nunca se desenvolvem até se tornarem árvores adultas nas áreas invadidas por goiabeiras.
Os cientistas ainda desconhecem a causa exacta. As plantas densas de goiabeira podem impedir a entrada de luz e ocupar espaço, enquanto a pobreza do solo poderá limitar os nutrientes disponíveis.
É também possível que a goiabeira liberte substâncias químicas que atrasam o crescimento de outras plantas. As mudanças nas populações de insectos podem igualmente afectar as árvores jovens.
Independentemente da explicação, há um ponto evidente: sem intervenção, a goiabeira-morango continuará provavelmente a dominar estas zonas.
A goiabeira beneficia e prejudica os lémures
A goiabeira-morango coloca ainda outro problema. Os animais que comem frutos, sobretudo os lémures ameaçados de extinção, concentram-se nas manchas de goiabeiras devido à disponibilidade de alimento.
“Aqui, temos uma espécie invasora que alimenta os lémures e, ao mesmo tempo, destrói os seus habitats”, afirmou Eric Wuesthoff, coautor do estudo.
Esta situação dificulta a conservação. Eliminar a goiabeira poderá reduzir a alimentação disponível para os lémures, mas mantê-la pode impedir a recuperação integral da floresta.
“O que este artigo evidencia é a complexidade dos esforços de conservação”, observou Dunham.
“A goiabeira-morango é extremamente difícil de erradicar, útil para o povo malgaxe e associada de forma positiva aos lémures. Mas a sua presença perturba a floresta a muitos níveis e pode impedir que a floresta tropical recupere plenamente após a desflorestação.”
O caminho para a recuperação da floresta
As florestas tropicais húmidas não são apenas conjuntos de árvores. O solo, os insectos, as plantas e os animais estão todos ligados num sistema delicado. Quando uma espécie altera esse sistema, os efeitos propagam-se amplamente.
A goiabeira-morango pode parecer inofensiva. Produz frutos doces e, de certa forma, apoia a vida selvagem. Ainda assim, bloqueia o percurso natural de recuperação da floresta.
Esta investigação recorda-nos que a natureza nem sempre recupera sozinha. Por vezes, existem obstáculos ocultos no caminho. A protecção dos ecossistemas exige estudo cuidadoso, colaboração e decisões inteligentes.
Em Madagáscar, uma pequena árvore de fruto tornou-se numa grande lição sobre a complexidade da conservação.






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