Incêndio devasta baldios de Préstimo
O incêndio consumiu cerca de 70% da área total dos baldios de Préstimo, em Águeda. Tratava-se de uma mancha florestal organizada, parcialmente plantada nos últimos 10 anos, afirmou à Lusa o presidente da associação.
"Isto é muito desolador. Andamos há anos a trabalhar em projetos e a organizar a floresta e agora foi tudo consumido pelas chamas. Mais de 70% da área gerida pelos Baldios ardeu e o que ficou é uma área que nem tem nada para produzir", explicou Jorge Simões, a propósito do incêndio que deflagrou em Vouzela no dia 2 e chegou àquele território.
A Comunidade Local dos Baldios da Freguesia do Préstimo administra 850 hectares de área verde na União de Freguesias de Préstimo e Macieira de Alcôba, no concelho de Águeda, distrito de Aveiro. Há oito anos que desenvolve novos projetos de plantação.
"Ardeu tudo. Desde as novas plantações a pinheiros que tinham 30 anos. Só de pinheiro tínhamos 350 hectares. Depois, temos eucalipto em quase 130 hectares, não chega a tanto, e tudo o resto são outras espécies".
Projetos de reflorestação destruídos
De acordo com Jorge Simões, a associação comunitária dos baldios "tem realizado diversos projetos que têm permitido reorganizar o território" ao longo dos últimos oito anos.
Uma semana após o fogo, percorreu os terrenos para "tentar perceber os danos", que, segundo estimou, "são de centenas de milhares de euros".
Há três anos, os baldios obtiveram financiamento europeu para plantar "88 mil pinheiros e mais de 8.500 medronheiros". Num incêndio ocorrido há dois anos, "ardeu cerca de 40% desse projeto e, agora, ardeu o resto".
"Ficámos sem espécie nenhuma deste projeto que foi financiado", vincou.
Sem ter ainda percorrido integralmente toda a área sob gestão dos Baldios de Préstimo, Jorge Simões referiu que "está praticamente tudo dizimado". Acrescentou que, "por incrível que pareça, as únicas plantações que não arderam por completo, só nas orlas, foram justamente as do eucalipto".
Em Vale do Lobo, no Préstimo, deu como exemplo uma plantação de 33 hectares. Desses terrenos, quase oito hectares eram de pinheiro, cujas árvores já atingiam entre quatro e cinco metros de altura, mas "agora desapareceu por completo".
"Desapareceu o eucalipto e o pinho, porque, apesar de os terrenos estarem limpos, o incêndio entrou por cima, pelas copas, quer por projeções, quer pela passagem nas próprias copas. Foi tudo", lamentou.
Danos nas localidades e infraestruturas
Para Jorge Simões, o cenário que se observa no território traduz o estado de espírito da população e da direção dos Baldios: "Estamos desolados e desorientados, porque ainda não sabemos como vamos fazer para dar a volta a isto", admitiu.
A incerteza estende-se ao destino da madeira ardida, uma vez que, como explicou, "ninguém quer a madeira queimada, porque não tem qualquer interesse".
Nos caminhos entre as povoações da freguesia, nomeadamente na ligação entre Carvalhal e Rio de Maçãs, são evidentes os estragos deixados pelo incêndio. A circulação nesta estrada requer atenção acrescida, devido aos ramos e troncos caídos na via, às pedras que deslizam pelas escarpas e até a um poste que ficou suspenso pelos cabos, como se fosse um baloiço.
Em Cambra, "a água da nascente falhou, porque os canos arderam", enquanto "a eletricidade falhou, mas colocaram um gerador", relatou António Duarte.
O gerador foi desligado "na tarde de quinta-feira", quando a eletricidade voltou às habitações da aldeia. Nos 78 anos de António Duarte, "não há memória de um incêndio com esta força".






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